Pesquisador da Funed desenvolve estudo sobre contaminação da água por fármacos

O pesquisador da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD) da Fundação Ezequiel Dias (Funed) Marcos Paulo Gomes Mol desenvolveu estudo com o tema: concentração de fármacos em corpos d’água, mais especificamente no Rio das Velhas. O estudo durou dois anos, foi feito em parceria com o bolsista Arthur Couto Neves e avaliou os dez medicamentos mais consumidos no Sistema Único de Saúde (SUS: metformina, ácido acetilsalicílico, losartana, hidroclorotiazida, enalapril, omeprazol, fluoxetina, sinvastatina, amlodipina e clonazepam). A pesquisa é uma das pioneiras a incrementar o modelo proposto pela European Medicines Agency (EMA) e adaptá-lo para a realidade brasileira, com foco na cidade de Belo Horizonte.

Marcos apontou que o modelo original foi alterado para se adequar à realidade belo-horizontina por meio de uma modelagem matemática que buscou prever a concentração destes medicamentos no rio e como eles poderiam representar impactos ambientais negativos. “Para entender esse comportamento, foi realizado estudo e análise das possíveis variáveis presentes na capital mineira como, por exemplo, se a estação de tratamento de esgoto consegue ou não remover aquele medicamento durante o processo de tratamento”, explica o pesquisador.

O engenheiro ambiental explica que, para se ter uma definição aproximada do quão prejudicial determinado medicamento pode ser, é feito um estudo de dose e resposta, em que diferentes doses do medicamento são testadas em cerca de três ou quatro microrganismos presentes em corpos d’água. “Caso exista risco ambiental, nosso próximo passo é estudar uma maneira de remover este medicamento do corpo d’água, mas, obviamente, é muito mais fácil fazer esta remoção antes de eles terem contato com o efluente líquido, do que quando ele é dissolvido”, detalha Marcos.

Da questão ambiental para o aspecto da saúde, o pesquisador lembra que quanto mais medicamento consumido, mais resíduo é descartado. “Depois de ingerir o medicamento, uma parte dele é assimilada para fazer a função terapêutica e uma parcela é excretada pela urina ou fezes, isso é normal, cada medicamento tem uma característica de excreção. Ainda temos o problema do descarte de medicação em locais impróprios, como vasos e pias. E é a partir disso que a pesquisa tem o seu ponto de estudo, pequenas frações que são descartadas. Em geral, são poucas, mas quando se soma todas as frações descartadas pela população de uma cidade, chega-se em quantidades grandes que podem passar pelo sistema de tratamento de esgoto e chegar nos rios, que servem de abastecimento para populações do entorno”, conta.

De forma geral, as estações de tratamento de esgoto são feitas para remover parâmetros muito básicos, não permitindo a remoção de medicamentos na maior parte das vezes. Existem estudos que já demonstram o comportamento de várias estações diferentes e esses modelos foram usados no estudo do Marcos, considerando o cenário de Belo Horizonte. Da estação de esgoto, a água vai para o rio e o rio serve como abastecimento para as cidades próximas. “Mesmo com o tratamento da água, ainda podem ser encontradas algumas moléculas que não foram removidas e tem potencial de estar presentes na água das residências e as pessoas podem ingerir essas substâncias em pequenas quantidades, podendo ter algum efeito sobre a saúde. Esse é um dos focos do estudo, mostrar que existe um risco, e que isso já acontece há anos”, aponta Marcos.

O pesquisador ressalta que a pesquisa é um modelo teórico, e por isso é difícil precisar qual o nível de risco envolvido em relação a cada medicamento. “Nem sempre o mais consumido é o mais tóxico para o meio ambiente. O lozartana, por exemplo, foi o terceiro mais consumido e o que representou maior risco ambiental. Tudo depende de variáveis como a taxa de toxicidade, o tipo de tratamento do sistema de esgoto e taxa de excreção, exemplifica o pesquisador”.

Marcos aponta alguns desafios durante a realização da pesquisa, como o tempo que o trabalho durou. Segundo o especialista, um dos fatores que influenciaram a duração do tempo da pesquisa foi a dificuldade de se consolidar uma modelagem matemática que se encaixasse aos moldes da cidade. “Pensar as variáveis que tornam o modelo europeu aplicável à realidade de Belo Horizonte foi uma tarefa desafiadora. Outro fator dificultador foi a falta de referência no país para se aplicar o modelo e conseguir acesso aos dados de quantidade de medicamentos distribuídos e consumidos pelo SUS”, detalha.

O trabalho desenvolvido por Marcos apresenta potencial para ser replicado por outros pesquisadores para que seja possível visualizar os resultados em outras cidades de diferentes portes ao longo do Brasil, e principalmente, para que possam ser realizados monitoramentos para ver como está a concentração destes medicamentos na água.

Bic-Jr Laura Romano sob supervisão de Vivian Teixeira