Perfil do Viajante: conheça o historiador Sidney do Carmo

Brilho no olhar, paixão pelo que faz e muita história boa para contar. Estas são as principais características que marcaram o papo com Sidney do Carmo, historiador e referência técnica do Programa Ciência em Movimento (PCM).

Servidor da Fundação Ezequiel Dias (Funed) desde 1987, atua no Ciência em Movimento desde o seu surgimento, em 2012, a convite da então diretora da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD), Esther Bastos. Quando começou, tinha a função de fazer a articulação para o desenvolvimento do Programa e contatar as cidades onde as exposições seriam montadas.

Atualmente, enquanto monitor, conta a história da Funed, o que não é uma tarefa fácil. São três histórias dentro de uma Instituição: um recorte da história da produção de medicamentos; a história do Laboratório Central e; a História da Bioquímica, que impulsionou a Pesquisa na Funed.

Até chegar a fazer parte da equipe que compõe o PCM, percorreu um longo caminho. Afinal, são mais de 30 anos dedicados à Fundação. Começou na Funed na década de 80, atuando na fábrica de medicamentos no setor de líquidos, na área de envase. No mesmo período, fez parte de um grupo performático chamado Vírus Mundanos, composto por artistas que trabalhavam na área da saúde.

No início dos anos 90, passou a integrar o setor de Comunicação, onde aprendeu a fazer fotografias. Neste período, a Biblioteca da Funed e a Assessoria de Comunicação Social ficavam onde agora é o hall do Prédio Central.  Era uma mistura entre acervo histórico, jornais oficiais e o clipping diário que se montava com as notícias dos jornais impressos que circulavam na época. Por causa disso, propôs realizar a I Mostra Fotográfica da Funed, recebendo apoio do pesquisador Carlos Ribeiro Diniz, carinhosamente chamado de Professor Diniz. Segundo Sidney, o professor Diniz disse que “seria bem legal se nos prédios da Funed tivessem pinturas do Octávio Magalhães, Vital Brasil, Carlos Chagas, Ezequiel Dias…” e foi falando o nome de cientistas.

Porém, na II Mostra Fotográfica, que aconteceu enquanto Sidney ainda estava no setor de Comunicação, propuseram realizar algumas intervenções nos prédios da Instituição, mas as pessoas acharam meio estranhas “porque falava de um período da Fundação que foi estranho, obscuro. Isso motivou o surgimento de uma Portaria que dizia que era proibido realizar esse tipo de ação dentro da Funed”, relatou o historiador.

Naquela época, Sidney conta que andava com óculos sem lente, de coturno, suspensório e bermuda. “Que bicho é esse?”, era a frase que estava estampada na face de quem o olhava. Nessa trajetória, também pelo fato de que a história da Fundação tem uma ligação com a arte (Ezequiel Dias que traduziu Charles Baudelaire, por exemplo, e fazia os sarais literais na casa dele), questionou-se o motivo pelo qual não havia arte o suficiente dentro da Instituição, até que surgiu a pergunta: “Por que a gente da Comunicação não podia fazer isso?”, lembra.

Mais do que responder, realizaram a I Feira do Livro na Funed. Trouxeram Celso Adolfo, Paulinho Pedra Azul e, nas palavras de Sidney, “um cara que toca um Jazz fabuloso” – mas o nome fugiu da memória. Nas Feiras do Livro, algumas livrarias eram convidadas. Elas vendiam os livros e descontavam o valor na folha de pagamento dos servidores depois de 40 dias. “O povo comprava livro a rodo porque o preço também era bom”, comentou Sidney, que também relatou que, na época, foi na Escola de Saúde Pública (ESP-MG), pegou um projetor de 16 mm e fez um convênio com o Consulado Francês, através da Aliança Francesa, e com o Instituto Goethe, para passar filmes alemães e franceses na hora do almoço. “Vinham três ou quatro pessoas, mas havia esse hábito, quinzenalmente. A direção da época permitia e dava apoio”, destacou.

Nesse tempo, como ele tinha viajado e participado de festivais com o grupo de teatro, foi convidado a ir para o Rio Grande do Sul, onde permaneceu por um bom tempo. Ao retornar, foi chamado para trabalhar realizando ações para celebrar os 120 anos da imigração italiana. Quando voltou, quatro anos depois, foi trabalhar na ESP-MG que, naquela época, pertencia à Funed. Lá, conviveu com sociólogos e antropólogos que tinham uma visão muito grande de trabalhar com a saúde através da cultura. Desenvolveram o Projeto Saúde com Cultura, que propunha que nos postos de saúde houvesse mais cultura ao invés de doença.

Depois disso, Sidney foi conhecer as ex-colônias de hanseníase do estado de Minas Gerais, também chamadas de casas de saúde. O projeto era desenvolver uma ação que não abordasse a doença, mas a pessoa. “Fiz o primeiro trabalho e conseguimos (o grupo) fazer o registo de 60 pessoas que tinham a doença, nas cidades de Ubá, Bambuí, Betim e Três Corações. Esse trabalho recebeu menção pela Fiocruz, por sua abrangência”, relatou.

Como recompensa, o Ministério da Saúde contemplou o servidor da Funed com um prêmio, o que permitiu que ele conhecesse a primeira colônia de hanseníase do Brasil, que ficava em Manaus, hoje tombada como patrimônio histórico. Sidney explica que estas casas de saúde têm muita relação com a Fundação, já que a Talidomida, medicamento usado no tratamento da doença, é desenvolvida aqui. “A Talidomida foi um medicamento que atenuou o sofrimento deles porque não havia um medicamento até a década de 50. Muitos doentes tomavam álcool para ficar alcoolizados e não sentir dor”, contou Sidney.

Quando voltou para a Funed, logo começou a atuar no Programa Ciência em Movimento, onde pôde juntar seu amor pela arte e pela história. “Eu tento sempre, ao falar da Fundação, trazer o contexto histórico, não só o da Fundação, mas, também, devido aos inúmeros desafios que vêm enfrentando ao longo de sua existência”, refletiu Sidney, complementando: “Quando o Ciência em Movimento vai para uma cidade, mais do que representar a Funed, ele está fazendo um recorte da saúde pública”.

Recentemente, o Programa, que é uma iniciativa da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD), realizou a primeira viagem interestadual. Quando questionado sobre a importância dessa viagem, uma vez que o destino escolhido também é o local onde nasceu Ezequiel Dias, Sidney respondeu: “Nós precisamos estar em Macaé! As pessoas que visitaram as exposições e souberam do Ezequiel Dias desejam isso também. O programa tem ações que estão dentro do Ministério da Saúde. Uma vez que ele possa ir para outros estados, além de demarcar presença, ratifica a importância da Instituição”, afirma.

Por estar a tanto tempo no Ciência em Movimento, Sidney pôde vivenciar alguns momentos curiosos nas cidades em que esteve presente. Uma vez, em São Lourenço – município de Minas Gerais –, fizeram uma roda de conversa para contar a história da Fundação. Ele conta que começou a falar muito e alguém disse que “estava pesando muito”, o que levou o historiador a pensar que poderia estar começando a chover. Até que alguém o explicou que “pesar muito” significava que ele estava falando demais. Desde então, Sidney começou a exercer mais a escuta.

“Levar a história e o conhecimento da Funed para outros lugares é muito importante. Tem pessoas que já nos procuraram para dizer que, se tivessem tido a experiência de aprender o que aprenderam nas exposições, os filhos não teriam morrido”, relatou o historiador, que também reforça a importância da participação dos servidores da Funed no Programa. “As pessoas só defendem aquilo que conhecem”, acredita.

O historiador ressalta que viajar para tantas cidades e ficar longe de casa e da família pode não ser uma tarefa muito fácil. Por isso, é importante reconhecer o trabalho de quem se dedica incansavelmente a levar o conhecimento científico para quem precisa e reforçar a necessidade das pessoas se atentarem a isso.

Texto: Daniel Nolasco

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Publicado em: 4 de junho de 2019 - 15:42

Um comentário em “Perfil do Viajante: conheça o historiador Sidney do Carmo

  • 5 de junho de 2019 em 08:11
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    Meu Deus quantas saudades tenho da Funed! Saudades de você Sidney .De toda esta equipe maravilhosa da Fundação onde tive grandes aprendizados .

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