Conheça a Doença da Arranhadura do Gato (DAG)

Todo mundo tem ou já teve contato com algum animal doméstico durante a vida. Eles são fofos e dóceis, e são muito comuns nos lares das pessoas. No Brasil, são mais de 139,3 milhões de animaizinhos, de acordo com dados divulgados em junho de 2019 pelo Instituto Pet Brasil, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Segundo as estimativas, existem mais de 54 milhões de cães e mais de 23 milhões de gatos em todo o território brasileiro.

Mas, o que muita gente não sabe é que, apesar de serem tão encantadores, estes animais também podem se tornar vetores para muitas doenças. Os felinos, por exemplo, podem transmitir doenças bastantes prejudiciais para os seres humanos. Por isso, é preciso tomar cuidado!

Algumas das doenças mais comuns transmitidas pelos gatinhos já são bastante conhecidas, como o caso da Micose de Pele e a Alergia Respiratória. Outras, apesar de não serem tão comuns, também oferecem risco. É o caso da Toxoplasmose, que é uma infecção com um parasita comum encontrado em fezes de gato e alimentos contaminados, e a Bartonelose.

Bartonelose é um termo geral usado para descrever doenças causadas por bactérias do gênero Bartonella. Na literatura, existem mais de 40 espécies descritas, porém, no Brasil, existem duas espécies mais circulantes: Bartonella quintana e Bartonella henselae, sendo a última, a espécie mais prevalente.

As espécies desse gênero são transmitidas, na maioria dos casos, por vetores como pulgas, piolhos, carrapatos e, principalmente, pela mordida e arranhadura de gatos e é por isso que o nome mais comum da enfermidade é Doença da Arranhadura do Gato (DAG), também conhecida como febre da arranhadura do gato.

Os sintomas mais comuns da doença envolvem febre, encefalite, inflamação cutânea local, linfadenopatia (aumento do tamanho dos linfonodos devido a processos inflamatórios), hepatoesplenomegalia (aumento do tamanho do fígado e baço), anemia, endocardite e distúrbios oculares como, uveíte e neurorretinite. Porém, é frequente o relato de casos assintomáticos.

“Ao entrar na corrente sanguínea pela arranhadura do gato, a bactéria busca nichos primários, principalmente células apresentadoras de antígenos (APCs), além de conseguir invadir células do endotélio de vênulas e capilares, vasos linfáticos e coração”, esclarece Ana Íris Duré, responsável técnica do Laboratório de Riquetsioses e Hantavirose da Fundação Ezequiel Dias (Funed). “Essa primeira etapa é considerada como a fase aguda da infecção. Isto permite que o patógeno inicie sua replicação antes de procurar o alvo principal, que são as hemácias”, completa.

Ana Íris esclarece ainda que, logo após a infecção ocasionada pela arranhadura, a bactéria se instala na corrente sanguínea em busca de nutrientes, principalmente o Ferro, presente nas hemácias. Isto permite que a bactéria invada as hemácias e se replique no citoplasma. Esta fase é denominada como a fase crônica da doença, caracterizada pela baixa bacteremia do patógeno.

O diagnóstico laboratorial pode ser realizado em até cinco horas após o recebimento da amostra. Já o diagnóstico clínico, realizado por profissionais médicos, pode demandar tempo, porque grande parte das manifestações clínicas da doença ocorre durante a fase crônica, e o patógeno pode permanecer presente durante meses no organismo.

Apesar de os felinos serem os principais hospedeiros da bactéria, na literatura há relatos de casos ligados a cães, ratazanas e outros mamíferos, além de morcegos. A preocupação com os gatos é uma relação com o aumento da procura da população por animais domésticos, principalmente os gatos, devido às características do animal, além da rotina da vida nas grandes cidades e o aumento das moradias em apartamentos.

Diagnóstico da doença na Funed

Desde 2012, a Funed realiza o exame de Bartonelose. Porém, foi a partir de 2014 que os casos começaram a ser notificados pelo Laboratório de Riquetsioses e Hantavirose para o Ministério da Saúde.

De acordo com o Laboratório, o diagnóstico realizado na Fundação é feito por meio de técnicas sorológicas, no caso, a Imunofluorescência Indireta (IFI), que analisa, em lâminas de microscopia, a reatividade de anticorpos com as bactérias intracelulares. Entretanto, “o Laboratório já trabalha com o projeto para implementar as técnicas moleculares como a PCR e o Sequenciamento de Nova Geração para se obter resultados mais confiáveis e fidedignos”, destaca Ana Íris.

“Entre os anos de 2012 e 2019, o número de diagnósticos laboratoriais realizados pelo Laboratório de Riquetsioses e Hantavirose foi de 270 exames, variando de 43, em 2015, à 105, em 2017, o que indica uma demanda crescente pelo diagnóstico”, destaca Marcos Vinícius Ferreira Silva, chefe do Serviço de Virologia e Riquetsioses da Funed.

Complicações da doença e prevenção

Em pacientes imunocomprometidos, como os soropositivos ou com alguma perturbação do sistema imune, como leucemia, ou que recentemente passaram por quimioterapia, a doença pode evoluir para casos mais severos como a angiomatose bacilar, uma infecção proliferativa de vasos sanguíneos ou a peliose hepática, caracterizada pela presença de cistos vascularizados no fígado, cujo rompimento pode resultar em hemorragia e, até mesmo, óbito.

Além disso, como os sintomas comuns têm relação com distúrbios oftalmológicos, a doença pode evoluir para uma perda da acuidade visual.

O tratamento da Doença da Arranhadura do Gato em pacientes imunocomprometidos é feito com aplicação de calor no local e analgésicos. Se os linfonodos estiverem flutuando, a aspiração com agulha geralmente alivia a dor.

Para evitar a febre dos arranhões dos gatos, alguns passos podem ser seguidos:

  • A melhor maneira de prevenir a doença da arranhadura do gato é evitar ser arranhado ou mordido por um gato ou cachorro.
  • Se você for mordido ou arranhado, lave a área imediatamente com água e sabão.
  • Mantenha seus animais de estimação sem pulgas.

Os sintomas desaparecem sozinhos em poucos dias, então, para a maioria dos pacientes com febre leve ou moderada, apenas tratamento sintomático conservador é recomendado.

 

Daniel Nolasco

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Publicado em: 23 de julho de 2019 14:14

Última atualização: 23 de julho de 2019 14:16

Um comentário em “Conheça a Doença da Arranhadura do Gato (DAG)

  • 26 de julho de 2019 em 11:08
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    Muito boa a matéria. Achei esclarecedora.

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