Funed 113 anos: tradição em pesquisa

Iniciando a série especial de matérias em comemoração ao aniversário de 113 anos da Funed, vamos resgatar um pouco da história da pesquisa e desenvolvimento na Fundação. Essa narrativa não começou apenas em uma bancada de laboratório, mas também em uma biblioteca!

Na sede da então filial do Instituto Manguinhos havia uma biblioteca excepcionalmente rica e seu acervo era o que tinha de mais moderno na literatura científica à época. Nesse ambiente, médicos, estudantes, pesquisadores e professores se reuniam, todas as semanas, para comentar os artigos científicos recém-chegados. Esse processo de intenso estudo e debate sobre as temáticas científicas relevantes acontecia concomitantemente à efetiva ida aos laboratórios.


Leituras e discussões sobre artigos científicos orientavam as pesquisas do Instituto – Foto: Acervo Funed

Outra peculiaridade marcava a atividade de pesquisa nesse tempo. Ela não acontecia formalmente separada, organizada por diretorias como acontece hoje. Era um processo integrado e contínuo com a realização de exames e fabricação de medicamentos. Para a pesquisadora e diretora da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD), Sílvia Fialho, a divisão formal contribuiu para o fortalecimento de cada uma das áreas e, atualmente, há iniciativas para fortalecer os projetos em colaboração. “A união de esforços para um resultado coletivo é de grande importância para termos êxito. Este é um cenário extremamente fértil para a produção cientifico-tecnológica relevante e engajada na resolução dos problemas de saúde da população”, afirma a diretora.

Pesquisa, Saúde Pública e Economia

Na década de 1910, quando a Fazenda do Leitão foi anexada à filial – hoje a área em torno do Museu Abílio Barreto – foram instalados uma enfermaria veterinária e um posto de observação para examinar animais suspeitos de doenças e fazer experiências de profilaxia e terapêutica. Nesse período, o Instituto realizou muitos trabalhos, pesquisas e exames relacionados aos problemas rurais. Minas Gerais era um dos primeiros estados da nação a ter uma instituição científica para auxiliar no desenvolvimento da indústria pastoril.

A tradição da Funed em pesquisas com animais peçonhentos também é dessa época. Belo Horizonte ainda era uma capital muito jovem, foi projetada em uma região onde havia grande quantidade de escorpiões silvestres devido ao bioma predominante, com mais características rurais do que de metrópole. À medida que a cidade crescia, a convivência dos moradores da nova capital mineira com os animais peçonhentos que ali estavam foi se tornando cada vez mais difícil e delicada.

 
Temáticas relativas aos animais peçonhentos sempre fizeram parte das pesquisas da Fundação – Imagem: Acervo Funed 

Sílvia Fialho, lembra que, atualmente, a pesquisa também é muito motivada por demandas urgentes de saúde pública, uma vez que a maioria dos editais está relacionada a esses temas. “Os pesquisadores acabam desenvolvendo seus projetos com base nos objetos dos editais vigentes. A pandemia de covid-19 é um exemplo claro que exigiu esforços de pesquisadores de diferentes formações. Na Funed, já temos alguns trabalhos publicados relacionados ao assunto. A resposta rápida da ciência demonstra que ela está cada vez mais motivada e preparada para atuar nas demandas urgentes sem perder de vista a pesquisa básica, sem a qual esta expertise não seria possível”, pontua Silvia.

No início do século passado, o índice de acidentes fatais causados por serpentes venenosas e escorpiões era muito grande. Crianças, trabalhadores e idosos não resistiam aos edemas e às complicações e, em questão de dias ou horas, muitos morriam. Somado a este problema social, havia a questão econômica do setor agropecuário, pois parte do gado também era afetada.

E é neste contexto que a pesquisa científica em saúde pública da Funed foi determinante para o desenvolvimento econômico da capital e de Minas Gerais, como explica a historiadora da Funed, Fabiana Melo Neves, sobre o papel que a Fundação teve na modernização do estado. “Foi uma junção das necessidades sociais e econômicas. A nossa economia era agrária e leiteira e as serpentes picavam o gado, que morria, o qual gerava um problema econômico. Então juntou-se a necessidade da sociedade, que estava sendo picada, e a necessidade econômica dos fazendeiros em criar um Posto Antiofídico em Belo Horizonte”, explica Fabiana.

A formalização do Posto Antiofídico na Funed ocorreu em 1918, quando foi assinado o contrato entre o Governo de Minas Gerais e o Instituto Filial Oswaldo Cruz para o funcionamento do serviço antiofídico no estado. O serviço nasceu com duas funções principais: pesquisar sobre o assunto e dar respostas emergenciais às demandas da população e dos fazendeiros que sofriam com os constantes acidentes com o gado; e fazer a extração do veneno das serpentes que eram enviadas pelos fazendeiros. Nesta época, o material era remetido aos Institutos Butantan e Vital Brazil, que depois mandavam o soro pronto ao Instituto em Minas.

Uma curiosidade desse período é que, com a abertura do Posto Antiofídico, eram feitos também atendimento ao público em casos de picadas de escorpião. Ao mesmo tempo, o Instituto começou a preparar o soro antiescorpiônico.

Popularização da Ciência e Ensino

As atividades de popularização da ciência já aconteciam desde os tempos do Instituto. Eram feitas excursões científicas ao interior do estado que disseminavam informações sobre a instituição e recolhiam ofídios para estudos, além de pesquisar doenças como a de Chagas, peste dos pulmões, febre aftosa, além dos acidentes escorpiônicos.

Essas viagens também possibilitavam o resgate de materiais de análise científica para coleção. Os elementos recolhidos eram organizados para a montagem de uma geografia médica e veterinária do estado de Minas Gerais e davam ao Instituto elementos de combate a diferentes doenças.

O papel educacional era importante para reduzir a mortalidade causada pelos acidentes. Enquanto em Belo Horizonte a urbanização expunha a população aos escorpiões silvestres, no interior do estado a expansão da agropecuária colocava a população em contato com serpentes peçonhentas, além dos problemas econômicos causados quando o gado sofria algum tipo de acidente com as cobras.

As atividades de popularização desenvolvidas até hoje na Fundação – como o Programa Ciência em Movimento, o Funed na Escola, as atividades da Coleção Científicas, as visitas ao Serpentário e os diversos conteúdos publicados em redes sociais – são marcadas por essa natureza educativa, mas também permitem a atualização de conhecimentos importantes nos dias atuais.

No ano de 1936, o Governo Federal transfere o Instituto Ezequiel Dias para a esfera estadual, denominando-o Instituto Biológico Ezequiel Dias, por meio da Lei nº 164 do mesmo ano. A tradição da Funed na área de ensino também é antiga. Com suas diversas atividades educacionais na capital e no interior, a instituição já praticava a tríade pesquisa, ensino e extensão – mesmo antes de isso ser uma premissa das instituições de ensino e pesquisa.

Hoje, esse trabalho se consolida a cada dia e a conquista do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia da Funed é uma demonstração disso. Para Silvia Fialho, a Funed sempre teve vocação para o ensino por meio dos programas de estágio e de iniciação científica nas diferentes diretorias, além de alunos de pós-graduação que passaram pela Funed e desenvolveram seus trabalhos por meio de co-orientação ou  orientação de pesquisadores da instituição. “A implantação do Programa de Pós-graduação na Funed foi um marco essencial para reforçar a capacidade dos nossos pesquisadores na formação de recursos humanos de alto nível e contribuir com o Estado e com o País na geração de profissionais capacitados para atuação no mercado biotecnológico”, acredita.

A Fundação também possui o Núcleo de Inovação e Proteção ao Conhecimento (NIPAC), que contribui para que os projetos de pesquisa sejam transformados em produtos tecnológicos, e que impulsiona o estabelecimento de parcerias, que são essenciais para o crescimento da instituição. Duas startups também foram criadas a partir do intenso trabalho de pesquisa e inovação desenvolvido pela Fundação: a Oncotag e a CELLtype.

Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento

Somente em 1984, a Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD) foi formalmente constituída. A criação da diretoria foi motivada pela Resolução nº 40, que criou um grupo de trabalho interinstitucional, com o objetivo de elaborar um diagnóstico da Funed e apresentar um plano global de reestruturação administrativa, técnica e financeira. O grupo concluiu que era preciso reformar as instalações físicas, desenvolver o conhecimento científico e tecnológico, capacitar recursos humanos, modernizar a administração e apoiar a integração interinstitucional. Quem esteve à frente desse trabalho foi o pesquisador bioquímico Carlos Ribeiro Diniz.

A Funed segue realizando pesquisas em saúde pública em diversas frentes – doenças negligenciadas, medicamentos, exames e diagnósticos, animais peçonhentos – aproveitando a tradição do passado e reescrevendo sua história de acordo com as demandas do presente. “Estamos no caminho certo para o crescimento e temos uma equipe coesa e motivada com os avanços da Funed”, finaliza Sílvia Fialho.