Um pouco da trajetória de Carlos Ribeiro Diniz

Nos 113 anos da Funed, conheça um pouco da trajetória desse professor, cientista e grande colaborador da Fundação. Foto: Acervo Funed

O pesquisador Carlos Ribeiro Diniz tem grande importância para a história da Fundação Ezequiel Dias (Funed). O professor Diniz, como é carinhosamente chamado, é uma unanimidade quando o que está em jogo é a admiração. Todos têm uma vivência para contar, um exemplo positivo ou uma palavra carinhosa relacionada a sua rica história de vida.

Mineiro de Luminárias, cidade do Sul de Minas Gerais com pouco mais de cinco mil habitantes, era filho do fazendeiro Leopoldo Oscar Ribeiro e de Marieta Carolina Diniz. Como sempre demonstrou grande curiosidade pela formação e transformação da matéria, essa característica o fez ser reconhecido como “doutorzinho” no meio rural onde vivia.

A personalidade curiosa e o gosto pela leitura também o levou mais cedo para a escola. Aos cinco anos foi para um colégio interno em Lavras (MG) por vontade do pai, que considerava a vida de agricultor muito penosa. Desde então, o estudo sempre fez parte de sua vida. Para a historiadora e autora do Livro do Centenário da Funed, Rita de Cássia Marques, professor Diniz tinha amor à ciência desde a infância. “Curioso, era interessado em muitas coisas! Saber sobre o mundo o ajudava a ter ideias novas, pensar adiante do seu tempo. Era curioso e estudioso!”, afirma a historiadora.

Trajetória

No final da década de 1930, Carlos Ribeiro Diniz muda-se para Belo Horizonte, onde começa a cursar a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Logo se interessou pela fisiologia, disciplina dada pelo professor Baeta Vianna, um dos pioneiros da pesquisa experimental no Brasil. A convite do professor, Diniz vai trabalhar em seu laboratório e participa de reuniões científicas, conhecidas como journal club. Nesse período, recebeu treinamento rigoroso em química analítica, fez revisão da literatura biomédica e de pequenos projetos de pesquisa. A geração do professor Baeta foi a primeira a usar a bioquímica moderna em laboratórios clínicos em Belo Horizonte.

Rita Marques descreve o professor Diniz como uma figura iluminada, sábia, cheia de ideias e que fez grandes amizades. Uma delas, foi com o professor Wilson Beraldo, que conheceu ainda nos tempos de estudante e que sempre admirou a capacidade administrativa do Prof. Diniz. “Segundo o professor Beraldo, o Diniz, desde os tempos que viviam em república, era um bom administrador, que colocava ordem na casa com calma e delicadeza”, relata e completa que, além de bom administrador era bom professor. “Gostava de ser chamado de professor, dizia que qualquer um bota um terno e já é chamado de doutor, segundo ele, professor era mais importante!”, lembra Rita.

Em 1943, Diniz concluiu o curso médico e foi convidado por Baeta Vianna para ser seu assistente na Faculdade de Medicina. Sua tese de livre docência foi defendida em 1948 e tinha como tema as enzimas proteolíticas da tireoide. Nesse mesmo ano, foi convidado por Baeta Viana para trabalhar no Instituto Biológico de São Paulo e na Escola Paulista.

No ano de 1949, professor Diniz se casou com Maria da Conceição Vasconcelos, em Belo Horizonte, com quem teve cinco filhos: Carlos Henrique, Marcelo, Rogério, Miguel e André. Seu filho, Marcelo Ribeiro Vasconcelos Diniz, também é pesquisador da área de bioquímica e foi servidor da Funed, onde atuou com pesquisa de peçonhas de aranhas e serpentes, purificação de proteínas, clonagem molecular, entre outros temas.

O contato do professor Diniz com a área de venenos começa na década de 1950, depois de ser convidado por Zeferino Vaz – pesquisador e médico brasileiro que foi responsável pela construção e desenvolvimento da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – para trabalhar em Ribeirão Preto com veneno de serpentes e de escorpião. Na época, não se conhecia a natureza química da peçonha, principalmente do Tytius serrulatus, popularmente conhecido como escorpião amarelo. Diniz também lecionou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde foi professor assistente, titular e chefe de departamento e de pesquisa.

Reconhecimento

Ao mesmo tempo, Diniz conduzia intenso trabalho de pesquisa. Dedicava-se ao projeto da bradicinina (usada em medicamentos de controle da hipertensão) junto com Maurício Oscar da Rocha e Silva – médico brasileiro que descobriu esse componente. Nessa época, chegou a publicar em uma das principais revistas científicas do mundo, a Nature, e teve seu trabalho reconhecido internacionalmente. Em 1955, Prof. Diniz recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller para trabalhar na Universidade de Wisconsin, em Madison (EUA). Lá, também realizou cursos como genética bacteriana, enzimologia e cultura de tecidos.

Na década de 1960, Diniz foi convidado por Oscar Versiani, diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, e por Luigi Bogliolo, professor de patologia, para o cargo de chefe do departamento de Bioquímica no lugar do Baeta Viana, que havia se aposentado. Depois de muita conversa, Diniz aceita a proposta e assume o departamento na Faculdade de Medicina da UFMG, até arrumar um substituto. Ficou entre Belo Horizonte e São Paulo por muito tempo.

Na década de 1970, professor Diniz participou da comissão de reformulação dos cursos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB-UFMG). Ele acreditava que o progresso da carreira científica estava ligado à boa formação na graduação e que a iniciação científica possibilitava uma mentalidade científica aos estudantes. Rita conta que, no primeiro encontro que teve com o Prof. Diniz no ICB, ele a perguntou se ela tinha pretensões de seguir carreira acadêmica. “Eu respondi que ‘sim ‘e ele emendou: ‘então vamos cuidar disso!’. Ele não me conhecia, mas me deu oportunidades como se eu fosse discípula criada por ele. Sabia valorizar o trabalho feito. Foi acolhedor, respeitoso e isso me marcou para sempre!”, conta a historiadora.

Visionário, em 1975, Diniz criou a Biobrás, empresa para produção de enzimas, situada em Montes Claros (MG), e que nasceu a partir de projetos do curso de pós-graduação em biotecnologia da UFMG. Para a chefe do Serviço de Biologia Celular da Funed, Luciana Silva, essa característica do professor Diniz de ser cientista empreendedor foi particularmente inspiradora para ela, que destaca a importância dada por ele ao trabalho com parceiros múltiplos e de maneira multidisciplinar, com várias instituições de pesquisa, o que acredita ser muito importante para o desenvolvimento biotecnológico de Minas Gerais. “Ele fazia questão dos seminários de pesquisa, trazendo cientistas de vários lugares para apresentar linhas de pesquisa, ampliar nossa rede de contatos e conhecimento. Inclusive deveríamos ter mais cientistas como ele, que consigam transformar suas pesquisas em produtos que possam gerar receita, retornar o investimento público já realizado. Precisamos avançar e fomentar mais iniciativas empreendedoras. Eu, através das minhas pesquisas, ajudei a fundar a OncoTag, então de alguma maneira estou honrando o legado dele”, afirma Luciana.

Contribuição à Ciência Mineira

Na década de 1980, Diniz contribuiu para importantes projetos da ciência mineira. Participou da rearticulação para criação da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e foi convidado, pelo então governador, Tancredo Neves, a assumir a superintendência da Funed. Na impossibilidade de assumir a direção da Fundação, professor Diniz, fica como assessor técnico e científico e, mais tarde, como diretor do centro de pesquisa da Instituição. Sua atuação foi central para trazer recursos para a Funed, o que possibilitou reativar os laboratórios de pesquisa e introduzir os trabalhos com venenos de peçonhas. Ele também reformulou e modernizou o processo de produção de soros da Funed, criando várias linhas de pesquisa. Giselle Cotta, chefe da Coleção Científica da Funed, lembra com carinho desse tempo. “Tive muito apoio do professor Diniz e de seu filho Marcelo Diniz na Funed. Foram eles que abriram as portas da herpetologia para mim. Participei com eles na época da crise do soro, em 1986, quando foram formados os grupos de trabalho regionais de distribuição de serpentes, entre outros”, recorda.

Para Giselle, a Coleção de Serpentes também existe muito em função do trabalho desenvolvido pelo professor. Diniz, pois Minas não tinha tradição em estudos de ofídios, já que eles eram voltados à questão dos venenos e do envenenamento e não para os animais que provocavam esses acidentes, especialmente as cobras. “Nessa retomada, ele incentivou o reativação da Coleção e profissionalizou o trabalho, de forma que o serviço se tornou uma referência na identificação dos animais que chegavam ao Serviço de Animais Peçonhentos, auxiliando na extração do veneno para a produção do soro”, pontua Giselle.

Inspiração

Professor Diniz com parte da equipe de pesquisadores da Funed. Foto: Acervo Funed

Em 2002, aos 83 anos e em plena atividade científica, Carlos Ribeiro Diniz morreu vítima de um Acidente Vascular Cerebral. Nas palavras das pessoas que o conhecerem e dos projetos que ele conduziu, ele segue cada vez mais vivo. “O professor Diniz foi uma pessoa muito importante na minha vida, ele foi inspirador pra mim. Ele sempre me apoiou naquilo que eu gostava, que era trabalhar na Coleção Científica. Sem ele não teríamos essa área tão importante na Funed, que derivou para a popularização da ciência. Ele fez isso e me deu de presente para cuidar. É isso que tenho tentando fazer na Fundação”, conta Giselle Cotta, emocionada.

Além da generosidade do professor Diniz, Luciana Silva lembra que ele também era um pesquisador inclusivo. Quando a pesquisadora chegou à Funed, sempre foi muito bem recebida por ele. “Por diversas vezes, ele manifestava seu contentamento em me ver, uma menina negra na ciência. Ele mencionava o fato de que poderia me enviar para o ICGEB (Centro internacional de engenharia genética e biotecnologia, situado na cidade de Trieste, na Itália) para fazer pós-graduação, ele até tentou uma vez, quando me formei em Biologia, mas faltaram recursos na época. Quando eu fui ao ICGEB pela primeira vez, após o falecimento do professor Diniz, foi um momento muito especial para mim, pois, de alguma maneira, consegui chegar lá, onde ele sempre quis me enviar”, recorda Luciana.

A história de Carlos Ribeiro Diniz inicia-se com ele sendo reconhecido como “doutorzinho” em sua cidade natal, segue identificado como professor por escolha própria e está eternizada na Funed por meio dos nomes do Centro Científico e do prêmio de iniciação científica criado em sua homenagem.