Funed é referência na produção de vacinas, soro e medicamentos há 113 anos

Em seus 113 anos, a Fundação Ezequiel Dias (Funed) tem construído uma história em que se tornou referência na fabricação e desenvolvimento de medicamentos, vacinas e soros. É o laboratório responsável pela produção da vacina meningocócica C, pela produção de soros antipeçonhentos, antitóxicos e antivirais e pelos medicamentos talidomida e entecavir, para atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao longo do tempo, a Funed se colocou como uma instituição estratégica para a promoção à saúde e também para o desenvolvimento econômico e tecnológico de Minas Gerais. O diretor industrial da Funed, Bruno Pereira, reforça a importância da instituição em suas diferentes áreas, “isso é resultado de uma história construída pelas pessoas que aqui passaram. Na produção de medicamentos, a Fundação se destaca pelo compromisso em atender às demandas da sociedade”. O diretor ainda aponta que muitas vezes alguns medicamentos são produzidos somente pela Funed e isso envolve a incorporação de tecnologias, sejam elas geradas pela própria Fundação ou com o apoio de parceiros. “Assim, a instituição atua na área de produção de fármacos de forma alinhada às estratégias do estado para garantir o acesso da população aos medicamentos”, diz Bruno.

Uma das testemunhas de parte dessa história é o médico veterinário e chefe da Divisão de Produção Animal da Diretoria Industrial, o servidor Cláudio Freitas. Na Funed desde 1986, o médico veterinário relembra a trajetória e importância da instituição para Minas Gerais, “já tivemos a produção de aproximadamente 32 linhas de medicamentos com 40 apresentações diferentes para atendimento ao Programa Farmácia Essencial, o que foi de grande importância no tratamento de agravos da saúde da população a custo zero, além da produção de vacina meningocócica C”, conta o servidor sobre os principais marcos histórico da instituição, “a Fundação Ezequiel Dias exerce um papel de fundamental importância na produção de fármacos, uma vez que que tem por finalidade o atendimento ao SUS”.

Toda essa trajetória começou na década de 1910, quando ainda era a filial do Instituto Manguinhos do Rio de Janeiro. Em seus três primeiros anos, a filial produzia as linfas vacínicas, utilizadas contra as diferentes moléstias humanas e de animais. Também preparava e conservava dois tipos de soros, um para o tratamento de difteria e, outro, anticarbunculoso, utilizado para neutralizar a toxina liberada pelo bacilo causadora de uma doença popularmente conhecida como antraz, que tem grande letalidade em animais. Esses são considerados um dos primeiros produtos na Funed.

Funed e desenvolvimento econômico em MG

Na década de 1910, as atividades da filial foram ampliadas após um encontro entre Osvaldo Cruz e o diretor de Higiene do Estado de Minas Gerais, Zoroastro Alvarenga, quando o Instituto passou a preparar as vacinas antivariólica e contra a Peste da Manqueira – doença infectocontagiosa dos animais da espécie bovina, além de se encarregar de realizar exames e diagnósticos de doenças e de higiene.

 

Década de 1910 – Ezequiel Dias realiza colheita de vacina antivariólica / Imagem: Acervo Funed

Naquele momento, também foi anexada à filial a Fazenda do Leitão, que é hoje a área em torno do Museu Abílio Barreto, com a finalidade de instalar uma enfermaria veterinária e um posto de observação. Na Fazenda, eram examinados os animais suspeitos de doenças e também eram realizadas experiências de profilaxia e terapêutica.

Durante esse período, o Instituto desenvolveu inúmeros trabalhos, pesquisas e exames relacionados aos problemas rurais e às dificuldades causadas pela recente urbanização da capital mineira, Belo Horizonte. Desta forma, Minas Gerais se tornou um dos primeiros estados no país a ter uma instituição científica para auxiliar no desenvolvimento da indústria pastoril.

Mesmo sendo um instituto federal, as suas relações com o governo estadual foram se estreitando cada vez mais. Em fevereiro de 1918, o Instituto Filial Oswaldo Cruz assinou um contrato com o estado para o funcionamento do serviço antiofídico em Minas.

Posto Antiofídico tinha três funções: pesquisar os acidentes com os animais peçonhentos para responder emergencialmente a uma demanda da população e dos fazendeiros que sofriam com os constantes acidentes com o gado, prejudicando o desenvolvimento da economia mineira; extrair o veneno das serpentes que lhe eram enviadas pelos fazendeiros para a realização de pesquisas e produção de um soro específico; além do papel educacional para reduzir a mortalidade causada pelos acidentes.

Esse veneno era enviado inicialmente para o Instituto Butantan, em São Paulo e depois para o Vital Brazil, no Rio de Janeiro, que retornavam com o soro antiofídico. Nesse mesmo ano, o Posto passou a atender também casos relacionados a picadas de escorpião e a preparar o soro antiescorpiônico. Foi durante esse período que a instituição passou a ser conhecida como “Instituto das Cobras”.

Em 1936, através da Lei nº 164 do mesmo ano, o Governo Federal optou por passar o Instituto Ezequiel Dias para a esfera estadual, denominando–o Instituto Biológico Ezequiel Dias. Com o desenvolvimento e crescimento do estado e da capital, na década de 1940, dois fatos importantes marcaram a história da Funed: o início da produção do soro antiofídico após o término do contrato de fornecimento com o Instituto Vital Brazil e a mudança da sede do Instituto para a Fazenda Gameleira.

Escala Industrial

O Instituto Ezequiel Dias se dedicou ao fortalecimento da produção farmacêutica em uma fase que foi marcada pela retomada do processo de industrialização nacional e o investimento dos estados. Foi nessa fase, na década de 1960, que a história da Funed como referência para a produção da talidomida para o Programa de Hanseníase do Ministério da Saúde começou, quando foi incorporada uma fábrica de sulfonas (composto químico específico) do Departamento Estadual de Lepra, para atender à demanda de anti-hansênico do estado e de outras regiões do país.

Em 1963, o então Instituto Ezequiel Dias também deu início à fabricação de produtos para a saúde, em seu Laboratório Farmacêuticos. Dentre eles, podemos citar: ácido acetilsalicílico, adipato de piperazina, água destilada, anti anêmico, codeína gotas, fenobarbital, fosfato de codeína, metapirina, dipirona, pas cálcio, soro fisiológico, soro glicosado isotônico, sulfadiazina, sulfato ferroso, vitamina B1 e xarope piperazina.

Iniciou-se um novo ciclo de produção e gerenciamento industrial no final da década de 1960, quando o Instituo passou a fornecer também ao estado de Minas Gerais produtos biológicos e químicos, tais como vacinas, soros, medicamentos, além de exames e pesquisas. Para combater a inflação e realizar reformas estruturais, o Governo Federal instituiu o programa de ação econômica. Nesse contexto e considerando a necessidade da população de se ter uma assistência farmacêutica, cria-se a Ceme (Central de Medicamentos) para promover e organizar o fornecimento de medicamentos à população.

A década de 1970 foi o período em que os investimentos do governo na indústria farmacêutica foram significativos. A Funed se tornou um dos laboratórios oficiais e passou a receber apoio técnico, equipamentos,  recursos financeiros e humanos, passando de uma produção rudimentar para uma escala industrial. Em contrapartida, esta produção industrial era direcionada ao Ceme.

Produção farmacêutica na Funed na década de 1970 / Imagem: Acervo Funed

Foi também nessa fase, em 1973, que a Funed iniciou a produção do medicamento talidomida. Atualmente, no Brasil, a Fundação é o único laboratório que fabrica o medicamento e além da hanseníase, ele é indicado para o tratamento de mieloma múltiplo, lúpus, anemia e úlceras aftóide. O produto é entregue, gratuita e exclusivamente pelo SUS, não sendo encontrado em farmácias e drogarias da rede privada.

A política governamental daquele período permitiu que a Fundação desenvolvesse um sistema fabril de medicamentos essenciais para a saúde pública. A fábrica de medicamentos era moderna e estava a todo vapor, ficando no terceiro lugar nacional em produção de fármacos.

Sistema Único de Saúde

Um dos marcos na história do Brasil foi a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). A saúde passou a ser um direito do cidadão e um dever constitucional do Estado, que deve garanti-la por meio de políticas sociais e econômicas. A Lei Orgânica 8080/90, que regulamenta o SUS, propõe a organização das ações e dos serviços de saúde, dentre elas a assistência farmacêutica.

A partir desse novo cenário nacional, a Funed se adaptou às novas diretrizes, implantando programas de qualidade, de modernização, expansão da área física e de compra de novos equipamentos. Nesse período, 40% da produção era destinada às Secretarias de Estado e Municipais de Saúde e, os outros 60%, ao atendimento do cronograma da Ceme.

Em conformidade com o Programa de Assistência Farmacêutica do Governo Federal, na década de 1990, a Funed implanta o projeto Farmácia Essencial, que objetivava distribuir gratuitamente, aos municípios, medicamentos essenciais. A produção industrial passou de 700 mil unidades para dois milhões e foi aprovada a construção da nova fábrica para produção de cápsulas.

Na produção industrial, em 2009, foi firmada a primeira parceria com a suíça Novartis, hoje GSK, para a transferência de tecnologia da vacina contra a meningite C, que passou a integrar o Programa Nacional de Imunização (PNI) em 2010. Desde que integrou o PNI, a Funed já entregou mais de 100 milhões de doses da vacina ao Ministério da Saúde. Para 2020, serão mais de 15 milhões de doses de vacina entregue ao governo federal.

Segundo o diretor industrial, Bruno Pereira, nos últimos anos a Funed tem passado por uma reestruturação em sua produção de medicamentos para atender às crescentes exigências sanitárias e às demandas da sociedade, “desde 2010, quando ocorreu o início do projeto de parceria com a GSK, a Funed optou por fortalecer a sua produção de biotecnológicos e temos nos capacitado para sermos referência na produção de vacinas – em especial na área de meningite”. Bruno afirma que esse é um marco na história da Funed e que traz um desafio tecnológico e administrativo, que pode deixar um legado para a Fundação, abrindo novas oportunidades. “As novas tecnologias que estão sendo trabalhadas pela equipe da Funed hoje nos permitem produzir medicamentos como vacinas e soros em um padrão de qualidade que a população pode se sentir segura”, finaliza o diretor.

Por Priscilla Fujiwara / ACS Funed