Funed participa de estudo que realizou implante para tratamento da toxoplasmose ocular

A pesquisadora da Fundação Ezequiel Dias (Funed), Sílvia Ligório Fialho, está entre os autores do artigo publicado recentemente (clique aqui para ler), em forma de caso clínico, que mostrou, pela primeira vez, a realização de um implante intravítreo (parte interna e posterior do olho) de clindamicina. O antibiótico – indicado para o tratamento de diversas infecções causadas por bactérias – foi usado no tratamento de uma paciente com lesões na retina causadas por toxoplasmose.

A mulher, de 39 anos, é portadora de HIV, sendo o tratamento oral contraindicado. Os exames oftalmológicos da paciente demonstraram uma melhora gradual e completa da inflamação e cicatrização das lesões após o tratamento intravítreo. A paciente foi acompanhada por 30 meses e não houve reaparecimento da doença. “Concluímos que o implante de clindamicina foi seguro para uso intravítreo nessa paciente, e parece ter contribuído para o controle, em longo prazo, da toxoplasmose ocular”, relata Sílvia.

A toxoplasmose ocular é a causa mais comum de uveíte infecciosa em humanos, conjunto de doenças dos olhos que provoca inflamação na região conhecida como úvea, que pode levar à cegueira em pelo menos um olho em cerca de 25% dos pacientes. Frequentemente, afeta crianças e adultos jovens, com significativa morbidade e, portanto, tem consideráveis implicações na produtividade desses indivíduos. Sílvia explica que o tratamento tradicional da doença em pacientes que apresentam lesões próximas ao nervo óptico e da fóvea (região central da retina) é a combinação de três fármacos: pirimetamina, sulfadiazina e corticosteroides por via oral. Porém, esse esquema terapêutico pode causar graves efeitos adversos, que levam à descontinuidade do tratamento em pelo menos um quarto dos pacientes.

Tratamento menos invasivo
Em vários casos, a clindamicina administrada por meio de injeções diretamente na região intravítrea, de forma off-label (indicação diferente da que consta na bula pelo profissional médico), vem sendo sugerida como uma alternativa clínica para o tratamento da doença. No entanto, estudos mostraram que em 47% dos casos, para se manter uma concentração ideal do fármaco no segmento posterior do olho, são necessárias injeções intravítreas repetidas. “Nesse contexto, nosso grupo de pesquisa desenvolveu um sistema polimérico, biodegradável, de aplicação intravítrea (implante), contendo clindamicinapara tratar a toxoplasmose ocular em uma única aplicação. Estudos prévios em laboratório e em animais mostraram que o sistema apresentou boa eficácia in vitro, em células de retina infectadas com o protozoário T. Gondii, e foi capaz de prolongar a liberação do fármaco por seis semanas no vítreo de olhos de coelhos”, esclarece a pesquisadora.

O grupo de pesquisa, que conta com pesquisadores da UFMG e da USP, iniciou os estudos com implantes biodegradáveis em 2002 e, desde então, vários trabalhos vêm sendo gerados, com o objetivo de proporcionar melhores oportunidades de tratamento aos pacientes portadores de doenças oculares. Os implantes inicialmente desenvolvidos tiveram seus estudos aprofundados por meio da colaboração estabelecida com a pesquisadora Francine Behar-Cohen, diretora da Unidade INSERM Physiopatologie des maladies oculaires innovations therapeutiques, em Paris, França. O desenvolvimento de implantes biodegradáveis para aplicação oftálmica proporcionou ao grupo de pesquisa a divulgação dos resultados em diferentes eventos científicos, a publicação de vários artigos científicos em periódicos importantes da área e a obtenção de prêmios, destacando-se o prêmio Capes de Tese da área de Farmácia.

“Neste momento, possuímos um estudo clínico com dez pacientes, aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – Conep, que permitirá o avanço dos trabalhos, que constituem as etapas essenciais para o processo de aprovação e registro de um medicamento inovador e de incontestável relevância social para o Brasil”, conclui Sílvia Fialho.