Estudo avalia a exposição e o risco do chumbo na alimentação brasileira

Quando pensamos no que ingerimos diariamente, muitos nem imaginam que contaminantes metálicos, como o chumbo, podem estar presentes nos alimentos. E tão pouco nos males que esse metal pode causar ao organismo. Motivado pelos efeitos danosos desse composto químico na saúde humana e pelo fato de haver necessidade de investigar o impacto desse metal pelo consumo de alimentos, o pesquisador do Serviço de Gerenciamento de Amostras, da Fundação Ezequiel Dias (Funed), Milton Cabral de Vasconcelos Neto, juntamente com colaboradores de diversas outras instituições, realizou um estudo sobre o assunto.

Fruto desse trabalho e do doutorado do servidor Milton Cabral, foi elaborado o artigo Lead in Brazilian food: Exposure assessment and risk characterization, que pode ser traduzido como Chumbo na alimentação brasileira: avaliação da exposição e avaliação de risco. A publicação completa pode ser conferida neste link.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o chumbo é um dos elementos químicos de maior preocupação, por estar associado a alterações como hipertensão, doenças renais, problemas neurológicos e redução do quociente de inteligência (QI) em crianças. Milton explica que o metal é um contaminante natural, mas que pode ter o seu teor aumentado nos alimentos por diferentes fatores. “Uma avaliação de risco foi realizada para estimar a ingestão alimentar de chumbo na população brasileira e investigar o potencial dano à saúde ocasionado pela alimentação. Identificamos quais alimentos merecem maior atenção e as lacunas de conhecimento que precisariam ser corrigidas e implementadas pelos órgãos sanitários. Foi um primeiro passo”, completa o servidor.

Como resultado dessa pesquisa, concluiu-se que o consumo total de chumbo na população brasileira chegou a 2,01 μg/kgpc/dia (micrograma por quilo de peso corpóreo por dia), valor considerado acima do aceitável pelos órgãos reguladores. Milton Cabral esclarece que os níveis de exposição ao metal requerem atenção, pois não existe mais uma dose de segurança para o chumbo, ou seja, quanto menor for a quantidade de chumbo ingerida, melhor seria.

Entre os principais contribuintes da exposição alimentar ao chumbo, estão os vegetais e as bebidas. “Como toda pesquisa, essa também apresenta limitações. Contudo, é importante perceber que entre quase 20 grupos de alimentos, dois foram apontados como os mais críticos, o que permitiria uma ação sanitária mais direcionada, destinada a concentrar esforços. Ou seja, se antes não sabíamos onde atuar, agora temos um rumo a seguir”, esclarece o pesquisador. A avaliação de risco indicou esses dois grupos de alimentos como críticos para a saúde da população brasileira, sendo os homens que residem em áreas rurais nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul os que requerem maior atenção.

A contaminação é um processo natural, mas que pode ser acelerado pela ação do homem. Milton explica que o chumbo é um metal amplamente distribuído na natureza. Contudo, devido às suas características específicas, ele tem sido utilizado ao longo dos anos pela humanidade. A exemplo disso, ele está presente na composição da gasolina, das tintas de parede e de cabelo, das tubulações e encanamentos hidráulicos, em alguns agrotóxicos e na fabricação de embalagens e de cristais. “Como é conhecido o seu efeito à saúde, algumas normas já foram estabelecidas, proibindo a sua utilização em vários seguimentos no Brasil. O problema é que, como a maioria dos metais, ele permanece no ambiente, inalterado, sendo arrastado pelo vento e pela água. É pela deposição atmosférica e pela absorção do solo que o chumbo se faz presente na cadeia produtora de alimentos”, esclarece o pesquisador.

Depois de absorvido pelas plantas, espécies animais que se alimentam das mesmas passam a se expor ao chumbo. No organismo, ele é absorvido e permanece estocado. Caso outras espécies, agora carnívoras, se alimentem do animal que consumiu as plantas, elas também seriam expostas à contaminação. O ser humano, que é onívoro por natureza, ou seja, consome diferentes alimentos, também pode se contaminar nessa cadeia alimentar. Milton alerta ainda que, devido a todas essas características, deve ser investigado o impacto do metal na saúde, e vista com cautela a produção de alimentos em áreas próximas às áreas de mineração e extração de chumbo, rodovias e centros urbanos. O pesquisador ainda alerta para que o pânico não seja gerado, pois é esperado que os órgãos da saúde adotem as melhores medidas.

O pesquisador também ressalta que, por tudo isso, a avaliação de risco impacta na Vigilância Sanitária como um todo. “A investigação dos vegetais e bebidas, presente no estudo, alteraria a rotina não apenas do Serviço de Gerenciamento de Amostras da Funed, mas de todos os setores, inclusive naqueles envolvidos na produção de resultados analíticos. As mudanças se dariam, por exemplo, na forma da coleta, na quantidade de amostras, na identificação da capacidade analítica, métodos, validação, padrões, condição e armazenamento, além da investigação sobre o modo de produção do alimento”, esclarece o pesquisador.

Milton Cabral explica ainda que, a partir dos dados publicados, além de apresentar aos órgãos de governo quais alimentos seriam considerados mais críticos à exposição ao chumbo, há indicativos que apontam a necessidade de produzir informações para outros alimentos e também a identificação de um público mais sensível. “Após a conclusão da tese, os resultados foram disponibilizados aos pares, como Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), Funed, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e universidades, que podem utilizar da informação para reformular e estabelecer práticas”, explica. “Como esperado no processo da análise de risco, a avaliação foi conduzida e o próximo passo, agora, é movimentar os outros elos, como a comunicação, para que o gestor adote as melhores medidas para a oferta de alimentos seguros”, acrescenta o pesquisador.