Pesquisadores da Funed relatam alegrias e desafios da área de pesquisa

No dia 8 de julho é celebrado o Dia Nacional da Ciência, das Pesquisadoras e dos Pesquisadores. A Fundação Ezequiel Dias (Funed) lembra a importância da data para o fortalecimento e valorização da ciência brasileira, e acredita que esse processo é feito com o esforço conjunto de muitas e muitos.

A data foi escolhida em homenagem à criação, em 1948, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em mais de um ano de pandemia pela covid-19, ela ganha cada vez mais relevância, uma vez que o debate científico está mais próximo da população em geral. As discussões sobre as vacinas contra a covid, por exemplo, saíram das bancadas de especialistas para figurar as redes sociais, o grupo de mensagens da família e até a mesa do jantar.

Para a pesquisadora do Serviço de Desenvolvimento de Produtos Biológicos da Funed e entusiasta de temas que envolvem as vacinas,  Patrícia Ferreira Boasquivis, a pandemia da covid-19 permitiu uma grande evolução no desenvolvimento de imunizantes. De acordo com a cientista, o desenvolvimento de vacinas, hoje, é mais racional e estruturado, e menos empírico. “Devido à pandemia, já chegamos ao cenário antes visto como o futuro (o uso de vacinas genéticas, por exemplo), que só foi possível devido à rápida evolução de técnicas de biologia molecular e engenharia genética, especialmente após a década de 1950.

Patrícia é farmacêutica e se dedica a estudar a função dos genes por meio de diferentes técnicas de edição gênica. No doutorado, ela estuda a função de um gene na capacidade de infecção de um patógeno, com o objetivo de avaliar se esse gene (e a sua proteína) poderia ser um candidato vacinal. É o início do processo de desenvolvimento de uma vacina (a definição do ‘antígeno’).

A pesquisadora atua em muitas frentes, dedicando-se a pesquisas voltadas para o desenvolvimento de produtos biológicos, que incluem, além das vacinas, os soros. “Nosso objetivo é diminuir a lacuna entre a academia e a indústria – assim, aplicamos técnicas acadêmicas no desenvolvimento dos produtos e transformamos em produtos ideias vindas da academia”, explica.

Patrícia conta que decidiu ser pesquisadora ainda na graduação de Farmácia e que a vontade de aprender além do que via em sala de aula foi fundamental para essa decisão. Embora tente levar a pesquisa com a alegria e leveza dos tempos da graduação, Patrícia aponta a falta de investimentos como um grande desafio a ser transposto no Brasil. “Em alguns locais, fazemos ciência com estruturas antigas e defasadas, com dificuldade de testar novas ideias por entraves na aquisição de reagentes e de equipamentos necessários para testes”, pontua.

Segundo a farmacêutica, as respostas que a ciência dá diariamente, e que agora ficaram mais claras para toda a sociedade por meio das ações de combate à pandemia, é o que mantém viva a sua esperança na ciência. “Também me sinto estimulada quando vejo pesquisas científicas se transformando em produtos e serviços que melhoram a qualidade de vida das pessoas”, afirma.

Experiência e colaboração

O pesquisador Eladio Oswaldo Flores Sanchez, do Serviço de Bioquímica de Proteínas de Venenos Animais (SBVA) da Funed, também acredita que os investimentos em pesquisa na Funed e no Brasil, assim como os trâmites burocráticos e/ou a interpretação da legislação Brasileira, são fatores a serem superados para agilizar a pesquisa científico-tecnológica. Assim como Patrícia, Eladio se mantém esperançoso porque acredita que já conseguiu colher bons frutos nas pesquisas que desenvolveu até hoje. “Considero, modestamente, que consegui reunir bons resultados em minha trajetória profissional, mas nós não paramos, a continuidade no desenvolvimento de ciência e tecnologia é que nos motiva  para seguir atuando em nossa linha de estudo. Um aspecto importante no trabalho em ciência e tecnologia é juntar esforços com outros pesquisadores do setor acadêmico-tecnológico envolvidos na pesquisa  da toxinologia básica e aplicada“, reforça Eládio.

Dentre as parcerias, o pesquisador destaca o grupo do professor Ja Eble, da University of Münster, Alemanha, no estudo de derivados de venenos ofídicos com potencial efeito anti-metastático e interação célula-proteína/receptor, com os quais mantém positiva colaboração.  “Recentemente (2019), estabelecemos a rede de estudo Network for Snake: Research and Drug Discovery. O SBVA-Funed, juntamente com o grupo do professor F. Urra, da Universidad de Chile; e os professores. A. Yarleque e DV. Ruiz, da Universidad Mayor Nacional de San Marcos”, destaca Eladio, lembrando que informações sobre a rede estão no site: www.snake-research.com.

Os resultados obtidos pelo grupo coordenado pelo professor Eladio foram conseguidos ao longo de sua sólida carreira na área de venenos animais, especialmente proteínas de venenos de serpentes, que atuam na hemóstase e função de plaquetas, envolvidos nos processos tromboembólicos e inflamação.

De nacionalidade peruana e pós-doutor em Química de Proteínas pela University of Southern California, Eladio veio para o Brasil em 1985, por meio de um programa de bolsas voltado à América Latina, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e começou a trabalhar na Funed com o pesquisador Carlos Ribeiro Diniz. “Ainda na graduação do curso de Biologia, no Peru, eu presenciei a evolução de um acidente causado por mordedura da serpente Lachesis muta (bushmaster, surucucu, shushupe) isso me impressionou. Segui nessa área da toxinologia de venenos animais de pesquisa básica/tecnológica e tive a oportunidade de trabalhar com o professor Diniz, logo no início da criação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Funed”, relata.

O pesquisador conta que trabalhou em diversos projetos de pesquisa e que teve a oportunidade de conhecer cientistas de muitas universidades do Brasil e do mundo. “Trabalhei aqui na Funed com o Dr. Michael Richardson, o Mike, que pesquisava o veneno da aranha Phoneutria nigriventer, e com quem desenvolvi vários trabalhos científicos”, lembra.

É justamente a colaboração e o trabalho em equipe que Eladio destaca como pontos fundamentais para os jovens pesquisadores. “Quem escolhe a área de pesquisa sabe que não é fácil. Problemas sempre vão existir, é preciso superá-los, é o desafio. É recomendável  trabalhar em equipe e de forma multidisciplinar”, sugere o pesquisador.

Ciência para a sociedade

André Felipe Leal Bernardes é um desses jovens pesquisadores que sabem o valor da equipe quando o assunto envolve trabalhos que impactam diretamente a vida da população. Biólogo, com mestrado na área de Microbiologia, André atua no Serviço de Virologia e Riquetsioses (SVR) da Funed e é referência técnica para vírus respiratórios. Na pandemia, precisou contar com muita colaboração para conseguir atender à demanda por exames moleculares para diagnóstico da covid-19.

O pesquisador lembra que, nos últimos 10 anos, o SVR alternou sua atuação entre pandemias de vírus respiratórios, epidemias de arboviroses e situações de calamidade pública, que necessitaram do envolvimento e altivez dos servidores. “Essas situações geraram impactos nas rotinas laboratoriais, alterando os processos dos laboratórios e propiciando expertise à equipe do SVR para o enfrentamento de situações adversas”, afirma.

Entretanto, André lembra que o maior desafio ainda estava por vir: a pandemia causada pelo novo coronavírus. Nesse período, o SVR coordenou, processou e liberou mais de 270 mil amostras para pesquisa do vírus SARS-CoV-2. “Desde outubro de 2020, uma série de mudanças estruturantes permitiu a disponibilização de 90% dos resultados analíticos em 72h. Em novembro, começamos a sequenciar genomas do vírus causador da covid-19 e fomos reconhecidos como um dos laboratórios de referência do Ministério da Saúde no projeto de Vigilância Genômica do Vírus SARS-CoV-2”, lembra.

Com atuação coordenada e em equipe, o trabalho permitiu que, em dezembro de 2020, o Laboratório Central de Saúde Pública da Funed (Lacen-MG/Funed) se tornasse o maior executor do diagnósticos de SARS-CoV-2 na rede pública, posto que mantém desde então. “A partir de janeiro de 2021, foi possível o SVR assumir completamente a demanda relativa ao diagnóstico laboratorial do novo coronavírus no Lacen-MG. Soma-se a isso o processamento de mais de 1.500 amostras para painel de vírus respiratórios, provenientes de unidades sentinela”, conta André.

Para o biólogo, que sempre achou formidável a capacidade de raciocínio, análise e método empregado para solução de problemas científicos, a ciência faz ainda mais sentido quando melhora a vida das pessoas. “Diante das adversidades do presente, há a busca pelo contínuo aperfeiçoamento das diferentes etapas que compõem os processos da medicina laboratorial associada aos vírus respiratórios. Além da falta de verbas, é preciso combater a ignorância e a inércia que abastecem a falta de conhecimento na área da pesquisa”, afirma André.