Funed completa 114 anos e se fortalece diante da pandemia

No último aniversário da Fundação Ezequiel Dias (Funed), em agosto do ano passado, o mundo ainda se via diante de várias perguntas sobre o futuro da pandemia de covid-19 e os melhores caminhos a serem trilhados para controle da doença. Nesse período, a Funed traçou novas estratégias e hoje se mostra uma instituição mais fortalecida para o enfrentamento da covid-19 de diversas outras enfermidades que atingem a sociedade como um todo.

São 114 anos de uma história que teve início em 3 de agosto de 1907, quando Ezequiel Caetano Dias aqui inaugurou a primeira filial do Instituto Manguinhos do Rio de Janeiro, hoje Fiocruz. Soros, vacina, pesquisas científicas, medicamentos e análises diagnósticas são apenas alguns dos produtos e serviços disponibilizados pela Fundação à sociedade. Para Dario Ramalho, presidente da Funed, reconhecer a importância da instituição e seu papel no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) é fundamental para a ampliação das suas diferentes frentes de atuação. “A Funed vem prestando, por mais de um século, um importante trabalho para a sociedade mineira e brasileira, não somente durante a pandemia, mas ao longo de toda sua história. Principalmente nesse último ano, foram necessários dedicação e empenho adicionais para atender às demandas, grandemente ampliadas pela covid-19”, reforça o presidente.

Entre as estratégias adotadas pela atual gestão na busca por soluções para melhorar o desempenho da Funed, está a recomposição orçamentária e o estreitamento na interlocução com o nível central do Sistema de Saúde. “Temos ainda buscado atuar junto às diretorias para solucionar desafios internos e aproveitar oportunidades de investimento para melhorar a infraestrutura e ampliar o espaço físico. A Funed vem também trabalhando ativamente na prospecção de um parceiro para a produção de vacina contra a covid-19, por meio do processo de transferência de tecnologia”, destaca Dario Ramalho.

Ainda sobre os impactos da pandemia no dia a dia da Funed, o diretor de Planejamento, Gestão e Finanças, Guilherme Moreira, ressalta que, além das vidas perdidas pelo vírus, o impacto social e profissional em cada um é enfrentado de maneira muito particular, mas igualmente difícil. “A força de trabalho da Funed, por exemplo, foi bastante impactada, uma vez que muitos se viram diante do teletrabalho, que exige adaptações a um novo modo de desenvolvimento laboral. Nesse sentido, temos buscado melhorias e meios para a adaptação do servidor a esse método, que se torna ainda mais desafiador devido às particularidades do trabalho realizado pela instituição”, comenta.

Entre as mudanças mais significativas durante o último ano, Guilherme Moreira menciona a publicação da Nova Lei de Licitações, nº 14.133/2021. “Ainda que ela não tenha sido completamente implementada, já é possível avaliar como benéfica a modernização do aparato jurídico, uma vez que as compras e procedimentos tendem a ser mais assertivos e menos burocráticos, trazendo assim um maior zelo com o recurso público”, complementa o diretor.

Análises e exames
No último ano, o Instituto Octávio Magalhães (IOM), que é o Laboratório Central de Saúde Pública de Minas Gerais (Lacen-MG), realizou importantes mudanças em sua estrutura, de forma a ampliar sua atuação no diagnóstico da covid-19 e de diversas outras doenças. A exemplo disso, o diretor do IOM, Glauco Carvalho, detalha que foi feita a readequação do laboratório de Biologia Molecular, com a aquisição de equipamentos e de plataformas automatizadas de ensaios moleculares, disponibilizados pelo Ministério da Saúde. Houve também a contratação de pessoal para atuação específica nos exames da covid-19, com ampliação do horário de funcionamento do Lacen-MG. “Com a aquisição dos equipamentos e contratação de pessoal, a capacidade analítica do laboratório saltou de 160 para 2.000 amostras por dia”, reforça o diretor.

A exemplo do pioneirismo da Funed no enfrentamento da pandemia da covid-19, no cenário nacional, Glauco Carvalho cita que o IOM é uma das quatro instituições participantes do projeto “Estruturação da Rede Nacional de Sequenciamento Genético para a Vigilância em Saúde”, do Ministério da Saúde. Além disso, a instituição está participando, desde abril, do projeto “Núcleo de vigilância genômica em tempo real do SARS-CoV-2 no Brasil”, em parceria com a OPAS, Fiocruz e UFMG; bem como do “Projeto de Genotipagem e Sequenciamento de Amostras Positivas para a covid-19 no estado de Minas Gerais”, juntamente com a UFMG e SES-MG. Fruto desse trabalho, a Funed foi a responsável pela identificação, por meio de sequenciamento genético, do primeiro caso da variante Delta (B.1.617.2) do SARS-CoV-2, em Minas Gerais.

Ampliando o escopo para além da covid-19, a Funed realizou importantes aquisições, como o espectrômetro de massas MALDI TOF, que otimizou a rotina de identificação de espécies de micobactérias não tuberculosas, com consequente diminuição do tempo de liberação do resultado das análises. Foi também implementado o teste de concentração inibitória mínima (MIC), exame importante para o manejo terapêutico adequado de pacientes com infecção por micobactérias não tuberculosas, sendo o Lacen-MG o único laboratório de Minas Gerais a ofertar a metodologia.

Em novembro do último ano, o Serviço de Virologia e Riquetsioses da Funed foi reconhecido pelo Ministério da Saúde como laboratório de referência nacional para Febre Maculosa e outras Riquetsioses. Atualmente, o laboratório está atuando também na produção de insumos para uso no diagnóstico das riquetsioses (Rickettsiarickettsii, R. parkeri e Coxiellaburnetti), para distribuição em todo o país.

Já em dezembro, o Laboratório de Carga Viral recebeu,por meio de contrato do Ministério da Saúde, o equipamento Alinity m Abbott, um analisador de diagnóstico molecular totalmente integrado e automatizado, que usa tecnologia de PCR em tempo real e será usado para a realização dos exames de carga viral de HIV e hepatites. Dos 83 laboratórios da Rede Nacional de Carga Viral de HIV e Hepatites, o IOM foi um dos cinco laboratórios escolhidos para receber o equipamento, em decorrência da alta demanda de análises realizadas. O diretor do IOM conta ainda que a instituição foi convidada pela Coordenação-Geral de Vigilância das Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde para participar no projeto piloto de implantação da Rede de Laboratórios de Biologia Molecular para Detecção de Clamídia e Gonococo (CT/NG).

“O IOM faz parte da Funed desde seu início e continua cumprindo seu compromisso com a Saúde Pública e com o SUS. Realizamos nossas atividades com qualidade e excelência, buscando sempre o aprimoramento e a inovação, contribuindo com as políticas de controle de doenças e com o monitoramento da qualidade dos produtos e serviços consumidos pela população, garantindo, assim, mais acesso à saúde no estado de Minas Gerais”, destaca Glauco Carvalho.

Ampliação do conhecimento
Na Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento da Funed, foram várias as ações que exemplificam a flexibilidade do setor diante da pandemia de covid-19. A divulgação científica e extensão, por exemplo, em função da suspensão temporária de atividades, foi ampliada para o uso virtual, alcançando um número ainda maior de pessoas. Diversas ações foram criadas como: “Funed em Casa”, “Cientistas da Funed”, “Falando em Bicho”, “Descomplicada Ciência”, os podcasts “Casos e Cases” e “Páginas Históricas”, “Boletim da Ciência”, postagens históricas, exposições virtuais como “Memórias da Ciência” e “Programa Ciência em Movimento”, além de lives sobre diversos temas e intervenções virtuais do Programa Funed na Escola.

Para a diretora de Pesquisa e Desenvolvimento da Funed, Sílvia Fialho, com a ampliação desses nichos de atuação, foi possível expandir a integração com a sociedade e promover novas abordagens na divulgação do conhecimento científico. “A disponibilização, em ambiente remoto, de informação científica com linguagem acessível e clara possibilita a qualquer cidadão o acesso ao mundo científico. Isso é um ganho intangível, uma vez que essa pode ser a única possibilidade de acesso ao conhecimento a depender do público considerado”, revela. “Todas essas ações contribuem para atender ao compromisso social da Fundação. Além disso,promovem transparência e prestação de contas à população, já que demonstram a destinação dos recursos públicos investidos em pesquisas na Funed”, completa Sílvia Fialho.

Em relação à produção e proteção do conhecimento, ressalta-se a criação de uma ferramenta para analisar as tecnologias desenvolvidas na Funed com o objetivo de avaliar a viabilidade de licenciamento ou incluir como produto da instituição. Nesse sentido, foi também elaborado um catálogo de apresentação das tecnologias da Funed para aumentar a visibilidade e buscar parceiros para o desenvolvimento e agregação de valor. A diretora destaca ainda que, no último ano, houve o depósito de seis novas patentes com tecnologias diversas dentro das linhas de pesquisa da instituição. “A Funed se mantém ativa na busca de pesquisas que possam trazer resultados para os cidadãos. Os novos pedidos de patentes protegem as tecnologias desenvolvidas na instituição, podendo se tornar novos produtos, processos ou serviços para a população, seja em busca de um desenvolvimento em conjunto com parceiros ou por licenciamento. Aliado a isso, a ferramenta de análise de tecnologias e o catálogo criados facilitarão a busca dessas novas parcerias”, frisa.

A diretora conta ainda que foi iniciado o processo para credenciamento das fundações de apoio, com a elaboração de um procedimento e publicação do edital. Atualmente, o mesmo está em fase de credenciamento das fundações aprovadas pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (SEDE). “O credenciamento das fundações de apoio pode agilizar a execução de projetos de pesquisa, na medida em que os recursos podem ser melhor empregados. A agilidade na execução das pesquisas é um requisito fundamental para a competitividade”, revela Sílvia Fialho.

As atividades remotas de discussões teóricas e redação de artigos também foram ampliadas, permitindo o aumento da produção científica, chegando a 39 artigos publicados em 2020 (agosto a dezembro) e 23 em 2021 (janeiro a junho), totalizando 62 artigos científicos.”Os projetos de pesquisa em desenvolvimento na Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD) continuam sendo executados, mas com algumas restrições devido à necessidade de revezamento com o teletrabalho na instituição. Assim como as atividades de ensino do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia, que foram continuadas, porém em ambiente virtual. A participação externa, por meio de aulas e palestras com pesquisadores externos, pôde ser ampliada e deverá ser mantida no futuro”, ressalta Sílvia Fialho.

Superando desafios e devido à necessidade de resposta à pandemia pela ciência, os pesquisadores da Funed têm atuado de forma colaborativa com outras instituições de pesquisa para o desenvolvimento de projetos para diagnóstico, tratamento e prevenção da covid-19. Nesse contexto, destacam-se dois projetos em discussão para o desenvolvimento de vacinas em parceria com a UFMG. Sob coordenação de pesquisadores da DPD, as pesquisas de teste rápido com o biossensor para a covid-19, coordenada por Luiz Guilherme Heneine, do Serviço de Imunologia Aplicada, e a de uso de ferramenta molecular para o desenvolvimento de soro heterólogo anti-Sars-Cov-2, coordenada pelo pesquisador Sérgio Caldas, do Serviço de Biotecnologia e Saúde em parceria com a Diretoria Industrial (DI) e Diretoria do Instituto Octávio Magalhães (DIOM), continuam em andamento na instituição. “A Funed, desde sua criação e ao longo desses 114 anos, assume papel relevante na Saúde Pública e vem mantendo o compromisso com a população por meio do desenvolvimento de pesquisas e disseminação do conhecimento científico, contribuindo significativamente para o fortalecimento do SUS”, destaca a diretora de Pesquisa e Desenvolvimento, Sílvia Fialho.

Entregas à sociedade
A Diretoria Industrial da Funed é responsável pelo desenvolvimento e produção de medicamentos e insumos fornecidos ao Ministério da Saúde e entregues à população por meio do SUS. Na instituição, é produzido o Entecavir 0,5 mg, utilizado no tratamento das hepatites virais, a vacina MenC, utilizada na prevenção da doença meningocócica, e o medicamento Talidomida 100 mg, para atender ao Programa Nacional de Eliminação da Hanseníase.

O diretor Industrial da Funed, Bruno Pereira, conta que a celebração dos contratos de fornecimento de medicamentos sintéticos e biológicos beneficiam a sociedade, pois sua entrega e disponibilização na rede pública garantem mais qualidade de vida aos pacientes, de forma a contribuir para o fortalecimento do SUS. “O ano de 2020 apresentou grandes desafios em razão da pandemia de covid-19. Um deles é o processo de aquisição de suprimentos, que é um desafio não só para a Funed como para todo o mundo, tendo em vista as restrições impostas, como por exemplo no transporte dos insumos. No entanto, a gestão tem buscado alternativas para que o desenvolvimento dos trabalhos não seja tão impactado”, pondera Bruno Pereira.

A exemplo dos esforços empreendidos, somente em 2020, foram entregues ao Ministério da Saúde: 503.550 comprimidos de Talidomida 100 mg; 5.423.790 comprimidos de Entecavir 0,5 mg; e 17 milhões de doses da vacina MenC. Já em 2021, até o mês de junho, foram entregues: 3.162.180 comprimidos de Talidomida 100 mg;146.400 comprimidos de Entecavir 0,5 mg; e 4.309.300 doses da vacina MenC.

“A Funed como um dos laboratórios públicos oficiais do Brasil, tem como missão promover insumos estratégicos e produtos indispensáveis à saúde da população brasileira. Os servidores da Diretoria Industrial têm grande compromisso com a entrega de seus medicamentos estratégicos para o Ministério da Saúde, contribuindo para a saúde da população. Além disso, estamos sempre empenhados em conseguir novos produtos para ampliar o portfólio da Funed, contribuindo para o fortalecimento do SUS “, destaca o diretor. “Comemoramos os 114 anos da Funed reconhecendo os desafios e as conquistas nesse último ano. Mesmo com a pandemia de covid-19, conseguimos ter entrega recorde de vacina meningocócica C ao Ministério da Saúde, lançamento do medicamento Entecavir 0,5 mg e negociações para novos projetos”, ressalta.