Pesquisas desenvolvidas por estudantes da Funed abrem caminhos para a carreira científica

Márcia Helena e a Estudante Dávila Silva

Alessandra Matavel e o jovem Samuel Dornelas

Como nasce um pesquisador ou uma grande cientista? Em busca de respostas que possam indicar como jovens pesquisadores trilham o caminho da ciência na Fundação Ezequiel Dias (Funed), encontramos histórias de estudantes que estão tendo êxito em suas áreas de atuação.

A jovem Dávila Regina Pacheco Silva, de 29 anos, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), é um desses exemplos inspiradores. Bióloga de formação, Dávila é bolsista do Serviço de Proteômica e Aracnídeos (Spar) da Funed desde 2016, quando começou como estagiária no Aracnidário Científico e, a partir de 2018, passou a ser bolsista do laboratório. A estudante conta que a motivação para tentar o estágio na Funed foi a relevância da instituição para a área da saúde e a possibilidade de trabalhar com aranhas. “O estágio me possibilitou entender mais a respeito de animais peçonhentos, espécies de aranhas de importância médica e identificação desses animais, técnicas de extração de veneno, além da importância de coleções científicas e da educação científica”, afirma a estudante.

Ao concluir o estágio no Aracnidário Científico, Dávila foi convidada pela pesquisadora e sua orientadora no laboratório, Márcia Helena Borges, a permanecer no Serviço de Proteômica e Aracnídeos como bolsista. “Foi quando eu tive meu primeiro contato com técnicas como Cromatografia, Eletroforese e ensaios de atividade biológica, por exemplo, trabalhando com veneno de diferentes espécies de Loxosceles (aranha marrom). A disponibilidade da equipe do laboratório foi o que me impulsionou a evoluir no entendimento técnico e teórico da área, além de contribuir para o meu crescimento enquanto pessoa”, conta.

O trabalho de conclusão de curso de Dávila partiu de um projeto já iniciado no laboratório, onde ela poderia aplicar as técnicas com as quais já estava familiarizada em busca de novos resultados. A estudante explica que as aranhas caranguejeiras que ocorrem no Brasil não são consideradas de importância médica, salvo pela irritação que causam com seus pelos urticantes, e existem poucas investigações a respeito de seus venenos. Elas também são aranhas de difícil identificação por espécie. No entanto, já existem alguns resultados que apontam a presença de moléculas bioativas em venenos do gênero Lasiodora, também conhecida como caranguejeira.

“O objetivo da minha pesquisa foi, resumidamente, tentar identificar quais moléculas estão presentes no veneno da aranha Lasiodora sp., tentar separá-las e identificar se elas apresentam atividade biológica e, portanto, potencial biotecnológico. Conseguimos confirmar que o veneno apresentou bioatividade contra os substratos observados, como por exemplo o ácido hialurônico e o fibrinogênio, e esse resultado confirma atividade proteolítica (processo de degradação de proteínas por enzimas, chamadas proteases, ou por digestão intramolecular) dos componentes do veneno”, detalha Dávila.

Essa pesquisa rendeu à estudante a conquista do 3º lugar no prêmio do Web Encontro Vital para o Brasil. “Ter meus esforços reconhecidos em um evento como esse foi muito gratificante! Mas eu não teria conseguido sem a orientação da Dra. Márcia e a colaboração dos colegas das equipes envolvidas: do Serviço de Proteômica e Aracnídeos e do Serviço de Biologia Celular”, reconhece a aluna.

Márcia Borges conta que mais de 100 alunos já passaram pelo laboratório SPAR e que a tarefa dos orientadores e supervisores vai muito além de ensinar a realizar os ensaios e procedimentos das bancadas. A pesquisadora acredita que, discretamente, é preciso estar atentos, presentes, ser ouvintes, observar as potencialidades de cada aluno, discutir, mostrar possibilidades e oferecer oportunidades. “O que conta é a contribuição que oferecemos para a formação definitiva do profissional. Muitos fizeram suas escolhas e decidiram não mais continuar na vida acadêmica, enquanto outros se empenharam em busca do mestrado, doutorado e são profissionais estabelecidos em instituições de pesquisa no país e no exterior. Ao olhar para a história de cada um, percebemos que nosso maior desafio é dar a eles próprios a possibilidade de escolha, de desenvolver seu potencial e de buscar realmente o que gostam e o que vão fazer depois da graduação” acredita Márcia.

O estudante de 22 anos, Samuel José Dornelas, que cursa graduação de Ciências Biológicas, sabe bem o valor de um incentivo na área de ciência. Quando cursou o curso técnico integrado ao Ensino Médio, no Cefet-MG, Samuel foi bolsista de iniciação científica júnior (Bic-Júnior), quando teve seu primeiro contato com a área científica. “Até aquele momento, eu não sabia ao certo o que significava ser pesquisador e a importância que essa função social carrega. Desde então, fui me encantando pelos questionamentos e pelas descobertas alcançadas nas pesquisas”, conta.

Quando começou a fazer estágio na Funed, Samuel considerou a relevância social da Fundação e a credibilidade que a passagem pela instituição poderia agregar ao seu currículo. “A Funed representa para mim o que o Brasil tem de melhor no que tange à produção científica. Digo isso no sentido de que a instituição, estando ligada ao estado de Minas Gerais e ao Sistema Único de Saúde (SUS), é diretamente assistida pelas políticas públicas de incentivo à pesquisa”, acredita.

O estudante pensa sobre a importância de fazer parte da Funed, podendo pesquisar e obter resultados com relevância social para entregar à sociedade aquilo que lhe é de direito, por meio da pesquisa realizada com investimento público. “Com isso, além de trazer benefícios para as pessoas, posso mostrar o quanto é importante o investimento nesse setor para o crescimento do nosso país”, completa Samuel.

O estudante reconhece que nem todos os jovens têm as mesmas oportunidades e podem fazer iniciação científica. Ele mesmo se envolveu na pesquisa por uma necessidade financeira, uma vez que a bolsa ajudava nas despesas da casa. “Para minha surpresa, aquela oportunidade significou muito mais do que um auxílio financeiro e veio a se tornar um grande propósito de vida. Assim, como foi para mim um divisor de águas para que eu pudesse me interessar pela ciência, acredito que o incentivo público para novos pesquisadores é algo que certamente tem o potencial de atrair jovens para o universo da ciência”, afirma.

Samuel também foi reconhecido com o primeiro lugar do Prêmio Carlos Ribeiro Diniz na categoria Graduação. A pesquisa vencedora foi orientada pela pesquisadora do Serviço de Biotecnologia e Saúde da Funed, Alessandra Matavel, e apresentou a forma de atuação do canabidiol (CBD) no tratamento da dor. “O uso do CBD não é recente na sociedade, seja para tratamento da dor ou de outras patologias como a epilepsia. Porém, muito pouco se sabe sobre o mecanismo de atuação dessa substância na melhora desses problemas. É como se fosse um conhecimento popular que não tem fundamento científico elucidado, mas que acontece na prática”, explica.

Para ele, o prêmio Carlos Ribeiro Diniz significou muito. “A primeira delas é que estou no caminho certo. Concomitante a isso, significou ter sido reconhecido por uma pesquisa que tem como objetivo principal a busca por qualidade de vida para as pessoas. Uma vez que atuo em uma instituição de pesquisa ligada ao SUS, nada mais justo e necessário que trabalhar para que os cidadãos brasileiros sejam beneficiados”, afirma.

Samuel recomenda que os jovens que pretendem seguir a carreira científica sigam firmes, apesar de todas as dificuldades. “A melhor forma de mostrar para as pessoas o quanto precisamos da pesquisa é dando a elas resultados como os que a nossa pesquisa trouxe. Tenho muita sorte de estar na Funed, uma instituição que oferece um suporte extraordinário na realização de pesquisas, com insumos de qualidade e equipamentos de primeira linha, mas a realidade nem sempre é essa”, acredita.

A pesquisadora e orientadora de Samuel concorda com o estudante e acredita que a persistência e a dedicação foram fundamentais para que ele seguisse na carreira científica. “Tive um colega nos EUA, Dr. Daniel Gray, que dizia que pesquisa é como baseball. Quando se é muito bom, se acerta 30%, e acho que é isso. A pesquisa é cheia de frustrações e experimentos que não funcionaram, mas acho que o que me mantém na trajetória é contribuir para melhorar a vida das pessoas. A pesquisa científica é uma chance de contribuir de forma ampla”, afirma Alessandra.

Para a cientista, estudar o mecanismo de ação do canabidiol, permite a compreensão do modo de ligação e atuação desse fármaco, auxiliando seu emprego de forma mais objetiva, prevendo e prevenindo os efeitos adversos, e melhorando o tratamento. “Samuel é inteligente, dedicado, persistente, perspicaz e muito proativo! Acredito que toda a pesquisa que desenvolvemos inicialmente mereça desdobramentos, e estamos trabalhando para contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas que sofrem com dor crônica, que, segundo a OMS, atinge 30% da população mundial”, acredita.

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Publicado em: 24 de novembro de 2021 09:10

Última atualização: 25 de novembro de 2021 09:20

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