11/2: Dia Internacional das Mulheres e Meninas na ciência

Hoje é o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), desde 2015. A ideia da data é promover o acesso integral e igualitário da participação de mulheres e meninas na ciência, para lembrar que as mulheres e as meninas desempenham um papel fundamental nas comunidades da ciência e tecnologia e que esta participação deve ser fortalecida.

Na Fundação Ezequiel Dias (Funed) há muitas mulheres que atuam em diversas áreas da pesquisa, mas o percurso científico é sempre mais turbulento para elas que, muitas vezes, precisam equilibrar as rotinas da pesquisa com a maternidade e outra série de atividades. Os incentivos e estímulos também são menores, pois até os brinquedos reconhecidos como “para os meninos” instigam a criatividade e a descoberta, enquanto as meninas continuam sendo associadas ao cuidado maternal ou doméstico mesmo nas brincadeiras.

Mesmo em um contexto pouco favorável, a bióloga Myrian Morato Duarte, do Serviço de Virologia e Riquetsioses, ultrapassou as barreiras contextuais e conseguiu se tornar doutora em Microbiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e hoje se sente plenamente satisfeita com sua atividade na Funed. “Estou muito feliz no setor que estou porque vejo a relevância do que faço em cada diagnóstico liberado. Trabalhar fazendo aquilo que acreditamos é fundamental”, afirma.

A afinidade com a ciência é antiga na vida de Myrian, que sempre gostou de bichos e da natureza em geral. “Eu já sabia que atuaria na área de ciências da natureza”, conta a pesquisadora. Toda sua formação foi em escola pública e não faltaram estímulos para que ela buscasse seus objetivos. Seu pai era um leitor voraz, tinham muitos livros em casa e sempre estimulou Myrian e seus irmãos – o geólogo Leonardo e a engenheira eletricista Flávia – à leitura. A bióloga também foi uma espectadora apaixonada pela série de TV Cosmos, de Carl Sagan (1978-1979).

O caminho de Myrian na UFMG passou por dois bacharelados, em Zoologia e em Parasitologia, além do mestrado e do doutorado em Microbiologia. A bióloga conta que um professor colombiano de morfologia, German Bohorquez, foi o responsável por ela ter conseguido seu primeiro estágio remunerado da sua vida, na Funed. “O Prof. German só falava conosco em espanhol e por isso nós fomos obrigados a aprender o idioma. Quando fui fazer a seleção para estagiária do Laboratório de Cultivo Celular da Funed, no final de 1993, era para trabalhar com o falecido pesquisador da Funed Hector Montes de Oca, que era argentino. Eu fui a única que entendia tudo que ele falava na entrevista. Ele me contratou na hora!”, lembra Myrian.

O Laboratório que Myrian trabalhava ficava de frente ao escritório do Prof. Carlos Ribeiro Diniz, com o qual ela teve muito contato. “Ele era uma pessoa com uma visão científica fantástica e uma capacidade enorme de incentivar outras pessoas, também tinha muito conhecimento da história da ciência, da descoberta de cada molécula, sabia contar a história por trás das descobertas. Tinha memória e conhecimento extraordinários”, destaca a bióloga.

Myrian conta que, depois que Hector faleceu, começou a trabalhar com a pesquisadora Consuelo Latorre, que foi muito importante nesse momento, pois acolheu os estagiários do laboratório e finalizou os projetos em andamento. Myrian trabalhou com Consuelo até 1999. Em 2000, conseguiu uma bolsa BDTI CNPq e foi trabalhar com Davi Toledo, que era chefe da produção de soros.

As coisas foram acontecendo naturalmente na vida da bióloga, que fez o mestrado (2001-2003), em seguida o doutorado (2004-2008) e também já tinha seu primeiro filho nesta época, o Pedro, que hoje tem 22 anos. Myrian também é mãe de Gabriel, de 13. “Dois dias antes da minha defesa de doutorado fiquei sabendo que tinha passado no concurso para bióloga da Funed, a vaga era para a área de biologia molecular, em que eu havia trabalhado com Consuelo, foi o primeiro concurso da minha vida!”, recorda.

A pesquisadora ficou até 2009 na Biologia Molecular, época que aconteceu a pandemia de H1N1, nesse tempo chamada gripe suína. Sônia Diniz era a chefe de Serviço de Virologia e recrutou todas as pessoas que pudessem ajudar e tivessem conhecimento na metodologia de PCR em Tempo Real, que era exatamente o que Myrian fazia na Biologia Molecular. Foi para Virologia para ajudar, apaixonou pela área e pelo serviço, e lá está até hoje. “Eu me vi naquele lugar. Aí pedi para ficar na Virologia, onde estou realizada e muito feliz e pretendo continuar enquanto sentir que sou útil”, afirma.

Paralelamente a tudo que fez na UFMG e na Funed, Myrian ainda desenvolveu outra habilidade: a de ilustradora científica. Ela conta que quando estava na zoologia, conheceu pessoas que estavam fazendo ilustrações de peixes e se ofereceu para fazer um desenho melhor! Ela fez um e pediram para ela fazer outros. Até que o conhecido médico, entomólogo e escritor, Ângelo Barbosa Monteiro Machado, especialista em libélulas, pediu que Myrian fizesse algumas ilustrações para ele.  A parceria deu tão certo que Myrian foi até homenageada pelo professor, tendo uma libélula batizada com seu nome, a Telebasis myrianae. Para as meninas que desejam trilhar o caminho da ciência, Myrian deixa um recado: “Sigam seus sonhos e ignorem as opiniões alheias!”.

Published in: 11 de fevereiro de 2019 - 12:57