Mapeamento genético: Funed participa de estudo inédito

 

 

A revista Science – uma das publicações científicas mais relevantes do mundo, produzida pela Associação Americana para o Avanço da Ciência – publicou recentemente um estudo com participação inédita da Funed. O artigo intitulado Genomic and epidemiological monitoring of yellow fever virus transmission potential ou Monitoramento genômico e epidemiológico do potencial de transmissão do vírus da febre amarela, em tradução livre, introduz pela primeira vez um conjunto de métodos e técnicas que irão ajudar a caracterizar mais rapidamente, e em tempo real, futuros surtos no mundo.

O estudo é considerado o primeiro passo para que se possa prever quando e onde irão surgir novos surtos. Felipe Iani, pesquisador do Serviço de Virologia e Riquetsioses do Instituto Octávio Magalhães (IOM), da Funed, destaca a importância de se implantar a vigilância genômica no estado e no país. “Quando você consegue estudar os genomas dos vírus circulantes, é possível aperfeiçoar mecanismos de diagnósticos e atualizar vacinas, por exemplo. O estudo genômico é a base para uma série de outros estudos, por isso acreditamos que, a partir desta primeira investigação, outras pesquisas serão desenvolvidas para aperfeiçoar a vigilância em saúde no mundo”, acredita Felipe Iani.

A pesquisa que deu origem ao artigo da Science contou com a participação de aproximadamente 30 instituições científicas mundiais. Além de pesquisadores do Laboratório Central de Saúde Pública Lacen-MG / Funed, contribuíram com o estudo profissionais da Universidade de Oxford, Harvard, da Organização Panamericana e Mundial da Saúde (OPAS/OMS), do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), da Fiocruz, entre outras instituições de renome internacional. De acordo com Felipe Iani, a participação da Funed foi fundamental, pois cerca de 90% das amostras foram sequenciadas na Fundação. “Até então, havia apenas 40 genomas completos do vírus de febre amarela sequenciados no mundo. Em uma semana, conseguimos sequenciar 52, ou seja, superamos a informação mundial disponível até então. Foi uma semana de trabalho intenso, em que nossa equipe trabalhou mais de 12 horas seguidas por dia”, relata o pesquisador.

O estudo teve como base a epidemia de febre amarela que ocorreu em Minas Gerais no final de 2016 e início de 2017, que se estendeu até 2018 e foi considerada a maior que o Brasil já vivenciou nas últimas décadas. A pesquisa trouxe algumas respostas a questões centrais feitas à época, sendo a principal delas que a epidemia foi caracterizada por uma transmissão silvestre, ou seja, todos os casos humanos resultaram de picadas de mosquitos silvestres predominantes em florestas e áreas rurais.

A investigação também conseguiu mapear que esta epidemia resultou da introdução de uma linhagem viral, em última análise, oriunda da região amazônica, onde o vírus da febre amarela circula “silenciosamente” – termo que caracteriza longos períodos em que o vírus fica circulando entre primatas não-humanos sem ser detectado. O estudo sugere que o vírus entrou em Minas Gerais em julho de 2016, dado que pode ser corroborado pela detecção molecular do primeiro caso em primata não-humano. Já o primeiro caso confirmado em humano ocorreu em dezembro de 2016, demonstrando a importância da vigilância e monitoramento ambiental na prevenção de doenças emergentes e reemergentes, especialmente neste caso, o monitoramento de primatas como sentinelas. As análises mostram que os casos de febre amarela que ocorreram em populações humanas foram em sua maioria ocupacionais e predominantemente em indivíduos do sexo masculino, que viviam em média a 5 km de áreas florestais.

Para Marluce Aparecida Assunção Oliveira, diretora do Lacen/MG – Funed, esses dados também mostram a importância do trabalho realizado pelas equipes dos Laboratórios de Arboviroses, Biologia Molecular e Isolamento Viral da Funed durante toda a epidemia, gerando respostas em tempo hábil para a tomada de decisões de prevenção e controle da doença pela Secretaria de Estado da Saúde. “É importante lembrar que o envolvimento do Lacen/MG – Funed nesta pesquisa foi possível pela parceria estabelecida com a coordenação do Projeto Zibra II, que busca investigar questões relacionadas à epidemia por zika vírus no Brasil e outras arboviroses. Aceitamos o desafio e diferentes áreas do Lacen/MG trabalharam integradas para garantir a agilidade e qualidade das análises diagnósticas”, afirma Marluce.

Texto: Vivian Teixeira

Foto: Freepik

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