Pesquisadores da Funed participaram do MedTrop 2025
O 60º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2025) aconteceu entre os dias 2 e 5 de novembro, em João Pessoa (PB). Com o tema central “Mudanças climáticas e impactos nas doenças tropicais”, o evento, considerado um dos principais congressos de medicina tropical e saúde pública da América Latina, reforçou a importância da integração entre pesquisa, saúde e meio ambiente.
O congresso reuniu pesquisadores nacionais e internacionais e contou com a participação massiva de técnicos do Ministério da Saúde, Secretarias de Saúde e Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) de todo o país. A Fundação Ezequiel Dias (Funed) também esteve presente, com apresentações de trabalhos de pesquisadores da Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento (DPD) e da Diretoria do Instituto Octávio Magalhões (Diom), voltados para a saúde pública.

Um desses trabalhos, inclusive, conquistou o primeiro lugar como melhor trabalho científico do Medtrop 2025, entre mais de 2.000 trabalhos submetidos e 200 selecionados para apresentação oral, reforçando a importância da pesquisa para o fortalecimento das estratégias de detecção e monitoramento de agentes infecciosos no Brasil. O estudo, desenvolvido pelo pesquisador Luiz Marcelo Ribeiro Tomé durante sua atuação no Serviço de Virologia e Riquetsioses (SVR) da Funed, é voltado para vigilância genômica, ao diagnóstico clínico e à abordagem de Saúde Única.
“MetaSentinel: A Metagenomic Workflow for Pathogen Detection and Genomic Surveillance within a One Health Approach”, premiado em primeiro lugar, apresenta o desenvolvimento e padronização de protocolos e pipelines de metagenômica para diagnóstico clínico e vigilância genômica de patógenos no contexto de Saúde Única. Já em “Emergence of Candida (Candidozyma) auris in Minas Gerais, Brazil: Genomic Surveillance to Guide Rapid Public Health Responses”, Marcelo descreve a emergência de Candida auris em Minas Gerais em 2024 e demonstra como a vigilância genômica permitiu identificar rotas de introdução do fungo, mutações associadas à resistência antifúngica e orientar respostas rápidas de saúde pública.
Pesquisa e Desenvolvimento

Pela DPD, Job Alves, do Serviço de Pesquisa em Doenças Infecciosas, e Sílvia Oloris, do Serviço de Biologia Celular, participaram do encontro com cinco trabalhos. Job Alves apresentou três trabalhos que refletem avanços significativos no diagnóstico das leishmanioses e da doença de Chagas. “O destaque foi a palestra sobre o novo fluxo diagnóstico para leishmaniose visceral, desenvolvido a partir de mais de dez anos de dados do laboratório de referência nacional da Funed. A apresentação evidenciou o impacto e a importância da implementação desse modelo em todo o país, capaz de reduzir em até 99% a necessidade de exames invasivos e de tornar o diagnóstico mais rápido, seguro e acessível. O sucesso do estudo foi amplamente reconhecido no evento, consolidando Minas Gerais como referência nacional na área”, declara.
Além da palestra, o pesquisador apresentou outros dois trabalhos em formato de pôster: “Trajetória e Evolução do Diagnóstico Laboratorial da Leishmaniose Tegumentar”, que revelou a eficiência de um novo primer 100% mais sensível e promissor para uso em larga escala, e “Eficiência Diagnóstica e Padrões Epidemiológicos para Doença de Chagas”, uma análise inédita de mais de 125 mil exames realizados ao longo de 15 anos. “Essas pesquisas reforçam o papel estratégico da Funed e de Minas Gerais na inovação e no fortalecimento do diagnóstico laboratorial de doenças endêmicas no Brasil”, diz.

Já a pesquisadora Sílvia Oloris destacou seus estudos na área de febre amarela e febre maculosa: “Análise proteômica comparativa do soro de pacientes com febre amarela: perfis distintos de pacientes que se recuperaram ou que foram a óbito, no surto brasileiro de 2016-2018”, e “Diagnóstico da febre maculosa brasileira e caracterização de lâminas de imunofluorescência indireta utilizando microscopia confocal”, os dois desenvolvidos com participação de egressos do PPGBiotec e de vários servidores da DPD e do Serviço de Virologia e Riquetsioses (Diom).
De acordo com Sílvia, o MedTrop representa uma oportunidade única para reforçar a integração entre pesquisa, vigilância e políticas públicas. “No evento pudemos acompanhar a construção do ‘Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde’ e do ‘Plano Nacional de Prevenção e Controle da Resistência Bacteriana’, ambos do Ministério da Saúde, dentre muitos outros temas abordados”, ressalta.
Ainda segundo a pesquisadora, esses planos são extremamente relevantes na saúde e frequentemente permeiam os projetos dos alunos do curso de mestrado em Biotecnologia da Funed, além de conteúdos de nossas disciplinas. Como exemplo, ela cita a discente Marina Zerbini, que está atualmente desenvolvendo o projeto intitulado “Análise metagenômica de genes de resistência bacteriana em amostras clínicas”, assunto intimamente relacionado ao Plano Nacional de Prevenção e Controle da Resistência Bacteriana. “Desenvolver pesquisas na vanguarda da ciência e de acordo com as necessidades apontadas pelo Ministério da Saúde nos dá a certeza de estarmos no caminho certo”, encerra Sílvia.
Lacen-MG
Já pela Diom, seis pesquisadores participaram do MedTrop, levando trabalhos relevantes em temas como dengue, HIV, leptospirose, tuberculose, leishmaniose, doença de Chagas e malária.
A pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular da Funed, Priscila Souza de Almeida, apresentou o estudo “Reintrodução do sorotipo 4 da dengue no estado de Minas Gerais e o papel do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-MG) nesse contexto”. O trabalho ressalta como a detecção precoce permitiu alerta epidemiológico imediato, essencial devido ao risco aumentado de casos graves em indivíduos previamente infectados por outros sorotipos. “O trabalho destaca o papel fundamental da vigilância genômica do Lacen-MG para diferenciar linhagens, orientar ações de controle e fortalecer a resposta rápida à reintrodução do DENV-4 no estado”, destaca Priscila.
Para ela, a importância de estar presente em um evento de alcance nacional como o MedTrop está em aprimorar e atualizar conhecimentos, além de estreitar laços e fortalecer a troca com outras instituições. “Isso contribui diretamente para o trabalho da Funed, ao aprimorar as práticas laboratoriais e garantir mais qualidade e precisão nas análises realizadas pelo Lacen-MG”, completa.
Também pelo SVR, a pesquisadora do Laboratório de Carga Viral e Contagem de Linfócitos, Kelly Cristina Magalhães Luiz, apresentou três trabalhos desenvolvidos no setor, todos voltados ao fortalecimento da vigilância laboratorial e genômica do HIV-1 em Minas Gerais. As apresentações abordaram: “Análise epidemiológica da infecção por HIV-1 em Minas Gerais de 2022 a 2024”, “Perfil epidemiológico, imunológico e terapêutico de pacientes com HIV-1 em Minas Gerais: vigilância laboratorial e genômica (2024–2025)” e “Implantação de protocolo de sequenciamento de nova geração do genoma completo do HIV-1 no Lacen-MG”.
Segundo Kelly, os resultados obtidos reforçam a importância do aperfeiçoamento contínuo das metodologias para ampliar a capacidade de diagnóstico e o monitoramento genético do vírus. “Também evidenciam desigualdades de gênero, raça e escolaridade que ainda persistem entre pessoas vivendo com HIV em Minas Gerais, ao mesmo tempo em que indicam avanços no tratamento, refletidos na redução da carga viral detectável nos últimos anos”, destaca.
Para a pesquisadora, participar do Medtrop 2025 foi fundamental para divulgar o trabalho técnico e científico desenvolvido pela Funed, além de possibilitar uma troca rica de experiências com outros profissionais e instituições de referência. “Essa interação contribui diretamente para o fortalecimento das ações de vigilância e para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de enfrentamento da epidemia no estado”, finaliza.

Já pelo Serviço de Doenças Bacterianas e Fúngicas (SDBF) da Funed, o pesquisador e referência Técnica para os diagnósticos Laboratoriais de Leptospirose, Sífilis, Brucelose, Peste, Max Assunção Correia, apresentou o trabalho “Impactos do Envelhecimento Populacional na Incidência da Leptospirose: Estudo Retrospectivo em Minas Gerais (2005-2024)”, em que foi identificado aumento progressivo na proporção de indivíduos idosos acometidos pela doença, passando de 8% (2005-2009) para 17% (2020- 2024).
“Esse crescimento indica uma maior vulnerabilidade da população idosa à doença, possivelmente relacionada ao envelhecimento demográfico e a fatores imunológicos, representando um novo desafio para a saúde pública e evidenciando a necessidade de políticas específicas para prevenção e manejo da zoonose nessa faixa etária”, detalha o pesquisador.
Para Max, participar do Medtrop 2025 reforça a presença da Funed no cenário científico nacional, promove atualizações técnicas essenciais às metodologias dos ensaios aqui realizados, fortalece redes de colaboração e contribui diretamente para a melhoria das atividades de pesquisa, diagnóstico e vigilância desenvolvidas pela instituição. “O conhecimento adquirido no Medtrop tem um retorno imediato para o serviço público. Isso porque as informações sobre novas estratégias de vigilância, diagnósticos moleculares, surtos emergentes e gestão de riscos podem ser integradas às rotinas do Lacen, o que se traduz em melhores diagnósticos, vigilância mais eficiente e respostas mais rápidas a questões de saúde pública”, frisa o pesquisador.
Também pelo SDBF, a responsável técnica pelo Laboratório de Tuberculose e outras micobacterioses, Élida Aparecida Leal, e a bolsista de projeto de pesquisa, Lida Jouca de Assis Figueiredo, participaram, além do MedTrop, do XII Workshop Nacional da Rede-TB, um encontro específico que reúne pesquisadores e profissionais de todo o Brasil que trabalham especificamente com tuberculose e outras micobactérias.
Nesse congresso, Lida apresentou o pôster intitulado: “Perfil de resistência aos fármacos de isolados clínicos de Mycobacterium kansasii em Minas Gerais”. “Estar com profissionais de laboratórios centrais de saúde pública, de diversos estados, é uma experiência muito rica não só para troca de experiências como para discutir parâmetros, procedimentos e padronizações para novos testes”, ressalta a pesquisadora.

Ainda pelo Lacen-MG, a chefe do Serviço de Doenças Parasitárias (SDP), Letícia de Azevedo Silva, apresentou três trabalhos, com os seguintes títulos: “Eficácia da PCR em tempo real no fluxo diagnóstico da Leishmaniose Tegumentar (LT) em MG”, que teve como objetivo avaliar a importância da qPCR no diagnóstico da LT no ano de 2024 no Lacen-MG; “Vigilância Entomoepidemiológica da doença de Chagas no estado de MG”, desenvolvido em parceria com a DPD com o objetivo de analisar a distribuição e a taxa de infecção natural por Trypanosoma cruzi em triatomíneos de MG, além de verificar a presença de DNA humano; e “Vigilância laboratorial e Controle de Qualidade (CQ) do diagnóstico da malária em MG”, com o objetivo de avaliar a série histórica da vigilância laboratorial da malária no estado entre 2023 e 2024.
Segundo Letícia, a participação no MedTrop é de suma importância, pois o evento contribui para o aprimoramento técnico e científico de profissionais da área de Saúde, além de representar uma excelente oportunidade para fortalecer e divulgar as atividades desenvolvidas pelo SDP e estreitar parcerias em pesquisas. “Por sermos o Laboratório de Referência Nacional no diagnóstico da Doença de Chagas e da Leishmaniose Visceral, é imprescindível a participação de representantes do SDP para tornar as discussões mais robustas e alinhar as competências da Funed com os interesses da saúde pública”, destaca.
A pesquisadora conta ainda que, durante o congresso ocorre a Reunião Satélite Anual ChagasLeish, que tem a presença de representantes das esferas do governo, como Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Secretarias Municipais de Saúde, OPAS, OMS e um extenso comitê científico com pesquisadores renomados, para discutir sobre as Políticas Públicas de Saúde dessas doenças negligenciadas e seu impacto na sociedade.
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Publicado em: 19 de novembro de 2025 12:59
