Funed evidencia desafios no Dia Mundial da Malária
Informação e acesso à saúde são armas fundamentais para vencer a malária

Neste sábado, 25 de abril, a Fundação Ezequiel Dias (Funed) chama atenção para uma das doenças infecciosas mais antigas e ainda persistentes do mundo: a malária. A data, instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS), busca conscientizar a sociedade sobre a importância da prevenção, do diagnóstico oportuno e do tratamento adequado da enfermidade, que permanece como relevante problema de saúde pública na América Latina, na África e na Ásia. De acordo com a OMS, entre 2024 e 2025, mais de 600 mil pessoas morreram em decorrência da doença no mundo, sendo cerca de 75% crianças menores de cinco anos.
No Brasil, a malária está concentrada principalmente na região amazônica, responsável por mais de 99% dos casos. Em Minas Gerais, a doença apresenta baixa prevalência, com predomínio de casos alóctones – ou seja, infecções adquiridas fora do Estado, geralmente em áreas endêmicas. Segundo a Secretaria de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), entre 2021 e 2025, foram registrados 202 casos no Estado. Esse perfil epidemiológico impõe desafios importantes à rede de saúde, especialmente pela menor familiaridade dos profissionais com a doença.
Transmissão e prevenção
A malária é transmitida pela picada da fêmea do mosquito do gênero Anopheles, infectada por protozoários do gênero Plasmodium. O ciclo da doença envolve a infecção do mosquito ao picar uma pessoa doente e sua posterior transmissão a outro indivíduo.
A eliminação de criadouros – geralmente locais com água limpa, sombreada e de baixo fluxo – é essencial para o controle do vetor. Medidas como uso de telas, mosquiteiros, roupas protetoras e repelentes também são recomendadas.
Embora raras, outras formas de transmissão podem ocorrer, como por transfusão sanguínea, uso de seringas contaminadas, acidentes laboratoriais e transmissão congênita. Não há transmissão direta de pessoa para pessoa.
Sintomas e desafios na suspeição clínica
Os sintomas mais comuns incluem febre alta, calafrios, cefaleia, sudorese, mialgia e mal-estar geral. Em casos graves, podem ocorrer complicações como anemia severa, insuficiência respiratória e óbito, especialmente nos casos por Plasmodium falciparum.
De acordo com Letícia de Azevedo Silva, chefe do Serviço de Doenças Parasitárias da Funed, por se tratar de um quadro clínico inespecífico, frequentemente semelhante a outras doenças febris, e considerando a baixa ocorrência da malária em Minas Gerais, a suspeição clínica pode ser dificultada. Esse cenário reforça a necessidade de atenção redobrada por parte dos profissionais de saúde, especialmente diante de pacientes com histórico de viagem para áreas endêmicas.
“O período de incubação varia conforme a espécie do parasita: cerca de sete dias para P. falciparum e de 10 a 30 dias para P. vivax. O reconhecimento precoce dos sintomas e a suspeição são fundamentais para o diagnóstico e tratamento oportunos, reduzindo a gravidade dos casos e interrompendo a transmissão”, destaca o pesquisador da Funed, Eldon Carlos Queres Gomes.
Diagnóstico: rapidez e precisão salvam vidas
No Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde (MS) disponibiliza testes rápidos (TR), distribuídos em pontos estratégicos da rede. Esses testes possibilitam diagnóstico imediato e subsidiam o início do tratamento, especialmente em locais com acesso limitado a laboratórios.
Entretanto, o exame parasitológico continua sendo o padrão-ouro para confirmação da doença. Ele permite identificar a espécie do parasito, fundamental para a escolha do tratamento; determinar a parasitemia (quantidade de parasitos no sangue), importante para avaliar a gravidade; e monitorar a resposta ao tratamento e confirmar a cura.
Os principais métodos parasitológicos utilizados são o esfregaço sanguíneo e a gota espessa, técnicas que permitem a visualização direta do parasito no sangue do paciente através de microscópio ótico.
Tratamento
Após a confirmação diagnóstica, o tratamento é definido com base na espécie do Plasmodium, idade e peso do paciente, condições clínicas associadas e gravidade do quadro. A maioria dos casos é tratada em regime ambulatorial, com medicamentos disponibilizados gratuitamente pelo SUS, mas casos graves necessitam de hospitalização.
O Ministério da Saúde disponibiliza o Guia de Tratamento da Malária no Brasil, que orienta a conduta clínica. Como inovação no tratamento, o MS incorporou a tafenoquina ao SUS, por meio da Portaria nº 64, de 15 de setembro de 2025, sendo que atualmente o uso dessa medicação está em expansão para a região extra-amazônica.
A tafenoquina representa um avanço significativo no tratamento da malária, especialmente a causada pelo P. vivax (responsável por mais de 80% dos casos no país). Ela permite a cura radical com dose única, melhorando a adesão ao tratamento e reduzindo recidivas. Além disso, o Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar a tafenoquina na formulação pediátrica de 50 mg, indicada para crianças entre 10 kg e 35 kg. A distribuição dessa apresentação teve início em 2026, nos territórios indígenas Yanomami, região com elevada carga da doença.
Protagonismo da Funed na vigilância da malária
A Funed, como Laboratório Central de Saúde Pública de Minas Gerais (Lacen/MG), desempenha papel estratégico na vigilância da malária no Estado. Em parceria com a SES-MG, a instituição atua na organização da rede estadual de diagnóstico; na distribuição de testes rápidos; no controle de qualidade do diagnóstico parasitológico em toda a rede, incluindo serviços públicos e privados; na capacitação contínua de profissionais de saúde; e na investigação entomológica em campo e na identificação taxonômica de anofelinos.
Recentemente, a Fundação promoveu o curso “Malária (G6PD): teoria e prática”, voltado a profissionais de saúde de Minas Gerais, com abordagem integrada sobre o diagnóstico da doença e a realização do teste de Glicose-6-Fosfato Desidrogenase (G6PD), etapa essencial para o manejo terapêutico. “A iniciativa constitui uma etapa estratégica do projeto de expansão do uso da tafenoquina na região extra-amazônica, uma vez que a administração desse medicamento requer, previamente, a realização do teste quantitativo de G6PD. Esse procedimento é fundamental para o manejo terapêutico adequado, a fim de prevenir a ocorrência de hemólise (destruição de hemácias) em pacientes com deficiência dessa enzima”, destaca Letícia.
A ação reforça o compromisso da instituição com a qualificação técnica dos profissionais e com o aprimoramento da assistência à saúde.
Vigilância contínua é essencial
Mesmo em regiões de baixa endemicidade, como Minas Gerais, a malária exige vigilância constante. A associação entre histórico de viagem, sintomatologia e acesso rápido ao diagnóstico deve sempre ser considerada pelos serviços de saúde.
A informação qualificada, o diagnóstico oportuno e o tratamento adequado seguem sendo as principais ferramentas para reduzir a morbimortalidade e avançar no controle da doença.
Veja mais notícias de: Destaque
Publicado em: 24 de abril de 2026 09:00
Última atualização: 23 de abril de 2026 11:53
